Pimenta nos olhos dos outros é refresco!

Parece que é lugar-comum em nossa sociedade, a convicção que o jornalista é uma espécie de super herói que têm entre vários ‘super poderes’ e a capacidade de solucionar os mais intrincados problemas. Digo isso, porque constantemente recebemos e-mails, telefonemas ou somos abordados nas ruas da cidade, por pessoas que exigem a nossa colaboração através do jornal ou da rádio, para denunciar ou explicitar assuntos, que podem ser relevantes ou irrelevantes, dependendo da subjetividade de cada um.

É o caso de um suposto Eliseu, que no último domingo (2), passou pela minha página do Orkut e fez uma reclamação até interessante sobre a Segurança Pública da cidade. Ele criticou o prefeito, o diretor da Guarda Municipal, a Polícia Civil e também a Policia Militar. Segundo ele, “estamos abandonados e os veículos de comunicação da cidade, como o jornal FOLHA DA TERRA e o seu programa (que apresento semanalmente na rádio Sambê), não abordam esses assuntos”. Bom, para dizer a verdade, me sinto honrado em saber que as pessoas estão atentas ao nosso trabalho. Contudo, penso ser importante fazer alguns esclarecimentos sobre essa questão.

Confesso que às vezes, eu tenho a impressão que ninguém dá importância aos problemas que afetam a nossa sociedade, mas quando o veículo de comunicação é procurado para representar alguém que luta contra determinada situação que julga irregular, vejo que estou equivocado. Entretanto, quase que em sua totalidade, o reclamante não quer aparecer ou assinar a reclamação, se esquecendo que essa recusa retira a legitimidade da queixa. Como a população desconhece a história da COMUNICAÇÃO SOCIAL, penso ser importante citar que ela nasceu na Grécia, num espaço chamado Ágora Grega e a sua essência ainda permanece: “um instrumento de utilidade pública, aonde a população deve se pronunciar livremente sobre assuntos de interesse da coletividade” – daqui sai à relevância ou irrelevância do tema.

A prova do que estou dizendo é que quando fui tentar conhecer o nosso ‘preocupado’ Eliseu, eu descobri que ele não existe. Na verdade, ele criou um Orkut falso para fazer a sua denúncia, o que dá a ele um status de Clark Kent. Quer dizer, mantém a identidade secreta. O que me aborrece, é que muitas vezes a indignação é pertinente, merece uma atenção, mas o sujeito não quer colocar a ‘carinha’ para os outros baterem. Aliás, “é melhor que um ‘bucha’ apanhe no meu lugar”, pensa a pessoa. Lembro, então, do adágio popular: “pimenta nos olhos dos outros é refresco!” Refletindo sobre essas e outras atitudes, concluo que esse comportamento é um dos principais responsáveis pelo atraso de Rio Bonito.

Penso que essa postura do suposto Eliseu e de outros iguais a ele, é fruto de uma falácia criada e defendida pela classe dominante, que infelizmente foi assimilada pela classe dominada. A falácia é aquele velho ‘cerca Lourenço’, que afirma que o povo é ordeiro, incapaz de se insurgir contra os ilícitos praticados pela classe dominante e até oferece o nome para assumir a culpa de algum delito – os laranjas. Inclusive, quem mantém esse comportamento é premiado com as migalhas que sobram da mesa dos tais dominantes. A persistir essa situação o futuro é sombrio, porque a classe dominante fará o que bem entender no lugar que ocupam. Ou seja, o cidadão tornou-se uma marionete do sistema.

Reconheço, também, que uma denúncia é feita na clandestinidade, por causa de situações políticas e, sobretudo para que uma ‘boquinha’, que como pecados acariciados são difíceis de serem abandonadas, seja mantida. Mesmo assim, permaneço defendendo o direito inalienável da liberdade de expressão, que ao lado da educação, é uma eficaz ferramenta para transformar o indivíduo medíocre em alguém que pense e tenha liberdade de ação.

O objetivo de estudar e trabalhar com jornalismo é única e exclusivamente dar voz a setores da sociedade, que estão esquecidos pela grande imprensa que se habituou ao falacioso discurso oficial. Embora não pareça, o que seduz na profissão é ouvir o cidadão, e não, um fantasma que oculta um medroso, um medíocre ou um covarde mesmo. A minha sugestão é que o cidadão seja autêntico e franco. Afinal, o rádio, o jornal, a internet, a televisão e outros meios de comunicação, não funcionam como pára-raios. Mas como um amplificador na busca por uma sociedade mais justa.