Guilherme Duarte
Mais de 100 pessoas se reuniram em frente ao Fórum da cidade, na manhã da última segunda-feira (17), para protestar contra o teste de aptidão física aplicado pela Fundação Cultural Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra, no último fim de semana, no Complexo Agrícola de Rio Bonito, válido pelo Concurso Público do município, que está oferecendo 606 vagas para formação de cadastro de reserva. De acordo com os manifestantes, o exame foi aplicado sem a menor estrutura para realização das provas, fato que foi negado pela Fundação Dom Cintra. Ao todo, a instituição recebeu 95 recursos pedindo a anulação desta etapa.
As principais acusações eram falta de equipamentos, instalações inadequadas, maus tratos, inexistência de pontos de hidratação, entre outras coisas. Uma das candidatas mais indignadas era Ângela da Costa Santos, que fez prova para o cargo de agente de serviços gerais. “Foi desumano. Uma falta de respeito com a gente. Nós fomos tratados como animais. O local era totalmente desapropriado para esse tipo de avaliação e, além disso, os equipamentos utilizados prejudicaram o desenvolvimento das provas. Foi um absurdo”, reclamou Ângela.
Segundo os manifestantes, muitos candidatos chegaram a se machucar durante as provas, como foi o caso do vendedor Wilton Nascimento, que machucou a mão direita no teste de salto em distância. “Estava tudo errado, a começar que não tinha nem água para a gente beber. Chegamos ao local às 8h e só fomos sair por volta das 19h, sem comer e nem beber nada”, disse Wilton. “Ficamos em baixo de um sol quente e muitas pessoas chegaram a passar mal. Sem falar da falta de estrutura. Na prova de salto em distância, onde me machuquei, o ponto de aterrissagem era na areia dura e com pedras. Quando pulei, perdi o equilíbrio e quando fui apoiar a mão no chão acabei me machucando. Fiz um vídeo no meu celular para provar que faltou estrutura”, denunciou Wilton.
Quem também saiu lesionado do exame foi o artesão Charles Cardoso. “Parecia mais teste para o exército. Não avisaram a gente que teria que ficar lá durante o dia todo. Não tinha nem água e nem comida e se o candidato saísse do local era automaticamente desclassificado. Machuquei meu tornozelo no salto em distância e não consegui terminar as outras etapas. Meu tornozelo está inchado até hoje (segunda-feira, 17). A gente paga o concurso para ser tratado dessa forma? Isso é uma falta de respeito com o cidadão”, questionou o artesão.
Bastante revoltada, Lódia da Conceição, mãe de um candidato, também participou da manifestação. “Foi uma covardia. A prova não poderia ter sido realizada naquele local. Imagina você ter que correr desviando de cocô de cavalo e de poças de lama. Assim fica impossível alguém ser aprovado, né! Acho que eles pensaram que estavam lidando com animais. Os próprios funcionários estavam despreparados para aplicar as provas”, afirmou Lódia.
Humilhação
Alguns candidatos chegaram a denunciar que foram humilhados pelos organizadores do concurso. “Saí cedo de casa e passei pela humilhação de ter sido eliminado na balança. Eu tinha um atestado médico constatando que eu estava apto para fazer o teste físico. Desde quando um auxiliar de serviços diversos precisa ser marombado. Fui humilhado e espero que isso não fique assim”, contou Romildo Souza, morador de Itaboraí, que nem chegou a participar dos testes físicos, pois não tinha o peso exigido pelos organizadores.
Dom Cintra se defende
Procurado para dar explicações sobre o ocorrido, o consultor da Fundação Dom Cintra, professor José Eduardo Rezende disse, via telefone, que as provas foram realizadas conforme o edital e que o local possuía, sim, estrutura para a realização dos exames. “Todas as etapas estavam descritas no edital, não houve nenhuma irregularidade. Além disso, as provas foram aplicadas por um professor com doutorado que leciona na UERJ. Tombos e pessoas machucadas sempre acontecem em provas de aptidão física, isso é normal. No local, tinha uma equipe médica dando suporte aos candidatos que se machucavam. Na verdade, muitos candidatos não tinham condições de realizar a prova e por isso foram eliminados. Uma grávida chegou ir ao local para participar do teste físico, não podíamos deixar isso acontecer. Mas vamos ouvir as reclamações e analisar se existe alguma coisa com fundamento”, garantiu Rezende.
O secretário de Administração, Djalma de Paula, explicou que o concurso é de total responsabilidade da Fundação Dom Cintra. “Para a realização do concurso foi efetuado um processo de licitação para a escolha da empresa que seria a executora do concurso. A Fundação Dom Cintra foi a vencedora e tem total responsabilidade pelo andamento do concurso. Na última terça-feira (18), um representante da instituição esteve aqui e recebeu 95 recursos referentes a prova de aptidão física. Acredito que a Dom Cintra vai analisar todos os casos com atenção e chegar a um final bastante satisfatório. Tenho certeza que ninguém sairá lesado do concurso”, afirmou Djalma.
O que diz o edital
Os exames de aptidão física foram aplicados para os cargos de Guarda Municipal, Agente de Serviços Gerais e Auxiliar de Serviços Diversos. Segundo o edital, o referido exame é de caráter eliminatório e visa avaliar fisicamente os candidatos para realização das tarefas previstas para o cargo. De acordo com o documento, “o candidato não será considerado apto para realizar as provas de aptidão física caso possua Índice de Massa Corporal (IMC) da Organização Mundial da Saúde (OMS), que o caracterize como abaixo de peso ou obeso”. O item 1.11. do edital diz o seguinte: Os casos de alteração psicológica e/ou fisiológica temporários (estados menstruais, gravidez, indisposições, cãibras, contusões, luxações, fraturas, etc.) que impossibilitem a realização dos Testes de Aptidão Física, ou diminuam a capacidade física dos candidatos, não serão levados em consideração, não sendo concedido qualquer tratamento diferenciado, nem segunda chamada. Já no item 1.12 consta que “será eliminado o candidato que não atingir o desempenho mínimo em qualquer um dos testes do Exame de Aptidão Física”.