
O material humano na Saúde
Na última semana, nós começamos a escrever uma série de artigos, onde abordamos a área de saúde, e as dificuldades que não permitem a esse importante setor da sociedade, um funcionamento mais eficaz. Na mesma oportunidade, eu deixei bem claro, que seria necessário escrevermos vários artigos, porque estão inseridas nesse tema, inúmeras situações que as pessoas não abordam por vergonha, medo, covardia, desfaçatez, conivência, desinteresse e/ou um pacote que contém tudo isso.
Hoje, por exemplo, vamos refletir sobre a importância dos profissionais que militam na área de saúde. Aliás, é bom saber que sem o ‘material humano’, não se pode oferecer esse serviço. O médico, o fisioterapeuta, o assistente social, um funcionário do setor administrativo, a enfermagem, os profissionais que cuidam da higiene e limpeza do ambiente hospitalar, aqueles que cuidam da manutenção, da alimentação, da lavanderia, do serviço de costura, recepção, segurança, setor de imagem (RX, tomografias etc.), laboratório, motoristas, agente comunitário, escriba etc., todos tem a mesma importância nessa engrenagem.
Entretanto, aqueles que gerenciam a saúde do setor público ou privado, ainda não perceberam que além do bem estar dos doentes, eles também devem se preocupar e mostrar interesse para com a saúde física, mental e espiritual dos seus funcionários. Na verdade, não adianta investir em equipamentos de última geração e treinamentos caros, se esse funcionário é um escravo. Ou seja, para ter alguma dignidade, ele se mata em dois, três ou mais empregos.
Tenho encontrado profissionais cansados, ríspidos, estressados e preocupados em todos os hospitais, postos de saúde e serviços móveis de emergência que eu conheço. Embora os problemas particulares devam ficar em casa – mas ninguém consegue fazer isso, nem o inventor dessa máxima – eles são os principais responsáveis pelo baixo desempenho de alguns profissionais. Não é maldade do indivíduo. Simplesmente, ele é um ser humano que tem paixões, dores, necessidades etc. O profissional pode estar habilitado para fazer a sua função, mas se ele estiver fragilizado por algum problema, ele não estará mentalmente preparado e isso interfere no resultado do procedimento.
Quando se atende um paciente, o primeiro cuidado é o que chamamos de preparo psicológico do doente. Contudo, não se pode oferecer o que não se tem. Ou seja, se o profissional não está com a ‘cabeça boa’, como ele vai preparar o psicológico de alguém? Digo isso, porque situações do dia-a-dia, como a preocupação com o vencimento do aluguel, com a filha adolescente grávida, com o salário insuficiente, com o filho envolvido em drogas, com o cônjuge infiel, uma expectativa de desemprego em caso de reclamação, a fatura do cartão de crédito vencida, entre outros problemas sociais, fragilizam as pessoas e causam doenças.
No entanto, é bom lembrar, que essas situações que atingem as famílias brasileiras, também alcançam o profissional de saúde, que também é um ator social, e, logicamente, está exposto a doenças. Apesar disso, alguns patrões imaginam que esse profissional, não adoece e não se alimenta. Às vezes, eu chego a pensar que em suas cabeças doentias, certos patrões imaginam que o indivíduo que trabalha na área de saúde, não necessita ir ao banheiro algumas vezes ao dia, como o corpo exige.
Mas voltando ao trato dos enfermos, é bom frisar que o cuidador tem preocupações. E, se ele não estiver bem condicionado fisicamente, mentalmente e, sobretudo, financeiramente, esse profissional vai estar fragilizado e não vai participar de forma eficiente do processo de cura de um doente. Portanto, fica aqui um alerta a classe patronal. Os profissionais de saúde, não são seres autônomos e inanimados. Eles comem, bebem, compram, vendem, usam roupas, se divertem, vão à praia, ao cinema, namoram, entre outras coisas. Mas para que esses seres humanos funcionem como a máquina que vocês pretendem que eles sejam, eles devem ser valorizados, respeitados e tratados com dignidade. Na próxima semana abordaremos a calamidade que atingiu Rio Bonito.