
A logística da saúde
Nesta semana vamos retomar o assunto saúde. Nessa reflexão, vamos falar sobre as instalações de hospitais, que tem as suas emergências cada dia mais cheias porque os postos de saúde e Programas de Saúde da Família (PSF) não funcionam como determina o protocolo. Na próxima semana, vamos analisar a importância de um local bem equipado, para que a população seja atendida de forma satisfatória. Aliás, se o povo fosse atendido com mais eficiência, eu não tenho dúvidas que o clientelismo político seria banido pela sociedade, que geralmente é obrigada a se socorrer naqueles que utilizam essa prática, simplesmente por que não tem esperança de ser atendida como prevê a Constituição Federal (saúde, um direito de todos).
Dizem que “filho feito não tem pai”, mas hospitais construídos com objetivos eleitoreiros e inaugurados sem responsabilidade têm pai sim: o gestor público. Isso acontece, porque a idéia inicial não é oferecer saúde à população, mas sim, receber as polpudas comissões das empreiteiras que constroem o tal elefante branco. Em nossa região, por exemplo, o Hospital Estadual João Baptista Caffaro (HEJBC), em Itaboraí, que foi inaugurado em 2001, pelo então governador Anthony Garotinho, tem uma bela arquitetura, está bem localizado, é bem planejado, mas seria mais útil se o Centro Cirúrgico funcionasse.
Vou contar uma das histórias que ocorreu comigo na minha outra profissão, a enfermagem. Era um sábado à noite. No bairro do Boqueirão, em Rio Bonito, uma pessoa caiu e parecia ter quebrado a perna. Como não existe o serviço de ortopedia no plantão do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV), levei o paciente direto para o HEJBC, onde eu sabia que existia ortopedia. Chegando lá, fui recebido pelo especialista, mas ele me alertou: “vou avaliar o paciente, mas se ele precisar de cirurgia, você vai ter que procurar outro local, porque o nosso Centro Cirúrgico não funciona”. Eu confesso que fiquei estarrecido. Não sei se o amigo leitor compreende a gravidade do negócio, mas um hospital sem Centro Cirúrgico é como um banco sem dinheiro, uma padaria sem pão ou um baile sem música. Ou seja, um absurdo! Fica uma pergunta: onde estão nossos deputados estaduais que não estão cuidando dessa questão? As eleições de 2010 estão chegando!
Algumas pessoas costumam dizer que Rio Bonito é a cidade do “já teve” e recentemente isso foi comprovado quando perdemos, para o município de Saquarema, o Posto de Atendimento do Bombeiro Militar (PABM), que ficava as margens da BR – 101, próximo ao Centro Administrativo da Prefeitura Municipal. Essa situação está gerando uma chiadeira danada entre os munícipes. As autoridades municipais também não gostaram, mas o protocolo da política exige que o político sinta dor sem chorar. Ou seja, não pode reclamar com veemência, para não ‘alarmar’ o povo. Mas será que o riobonitense não viu que o PABM foi embora? Será que a população não sabe o que isso representa para Rio Bonito? Bom, de acordo com o Coronel Luiz Paulo Sias, comandante dos Bombeiros da área litorânea e coordenador regional da Defesa Civil, o Bombeiro estava ali para atender as ocorrências ao longo da BR – 101. Mas com a chegada da Autopista Fluminense, que oferece socorro e serviço médico aos acidentes ao longo da rodovia, o Estado entendeu que não era mais preciso o PABM. Acidentes dentro do município serão atendidos pela viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).
Outra historinha: há algumas semanas nós tivemos um acidente na Mangueirinha, próximo da igreja Metodista. Foi um acidente doméstico. Ou seja, dentro da cidade. Contudo, o impacto foi tão violento que o motorista de um dos veículos ficou preso no carro. O Corpo de Bombeiros ainda estava na cidade e para tirar essa vítima das ferragens, eles abriram o teto do veículo como quem abre uma lata de sardinha. O SAMU também estava lá, com as duas ambulâncias da base de Rio Bonito e auxiliou no transporte das vítimas para o HRDV. Com a perda do Posto de Atendimento dos Bombeiros eu fiquei pensando: como os profissionais do SAMU vão abrir o teto de um carro para resgatar uma vítima? Porque a única tesoura que tem na viatura é para cortar gaze e esparadrapo.
Já há algum tempo, estamos vendo muita gente fazendo planos mirabolantes para a região por causa do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Fala-se em empresas, em empregos, em dinheiro, mas não estou vendo ninguém falar de hospitais. Vamos receber cerca de 200 mil pessoas na região nos próximos anos e não vejo falar em novos hospitais em Itaboraí, em Tanguá e em Rio Bonito. Além disso, não vejo nenhum comentário oficial sobre reforma e ampliação de instituições como o Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, o Alberto Torres, em São Gonçalo e o João Batista Caffaro, em Itaboraí. E que tal um hospital federal na região?
Em uma entrevista recente, o presidente do Hospital Darcy Vargas, Luis Gustavo Martins, disse que “temos rodovias importantes cortando a cidade, os acidentes são muitos e isso nos preocupa”. Alguém mais tem essa preocupação? Entre essas 200 mil pessoas, muitos sofrem de diabetes, pressão alta e doenças respiratórias, que levam ao infarto, AVC, entre outras patologias. Alguém está pensando nisso? Você já ouvir falar que a região vai precisar de um hospital especializado atendimento a queimados? Não? E se explodir uma instalação daquela do Comperj? As vítimas serão levadas para onde? Para o Darcy Vargas? Para aquele hospital que não tem Centro Cirúrgico? Ou vão ficar quatro, seis, oito horas dentro das ambulâncias, enquanto alguém procura uma vaga? Se ninguém está pensando nisso, é bom começar.