Flávio Azevedo

Os irmãos Carlos Udison Mendonça Ferreira, de 4 anos, e Evandro Júnior Mendonça Ferreira, 12, morreram soterrados no último domingo (28), em decorrência de um deslizamento de terra, que aconteceu por volta das 18h, em Rio Mole, próximo a divisa de Saquarema com Rio Bonito. Eles passaram a integrar a estatística de mortos vitimados pelas chuvas que caem no Estado do Rio de Janeiro há cerca de 40 dias. Segundo testemunhas, chovia torrencialmente e as crianças estavam dentro da casa, que foi totalmente destruída. A residência foi atingida por grandes pedras que desceram da encosta. Os irmãos não tiveram tempo de sair da casa.

A força da destruição modificou a geografia e a paisagem do local, uma área entre a Serra do Mais Querer e a de São João. Segundo um vizinho, o feirante Vando Silva Ferreira, de 33 anos e sua esposa Diana da Silva Mendonça Ferreira, de 36, pais das duas crianças, estavam fora da casa, abrindo uma vala para escoar a água da chuva que poderia entrar na residência. O filho mais velho, Evandro Júnior, estaria junto com o casal, “mas como a chuva estava muito forte, o pai pediu que ele se abrigasse dentro de casa”. O mesmo vizinho acrescentou que “ao ouvir o estrondo, o menino chegou a aparecer na janela, mas não teve tempo de sair”. O lavrador Adriano Duarte da Silveira, de 33 anos, que também mora perto do local da tragédia, descreveu o que ouviu. “Choveu por mais de uma hora. De repente ouvi um barulho semelhante a uma explosão. Parecia que a montanha toda estava caindo. Quando cheguei, a desgraça já havia acontecido”, revelou.

O jardineiro Genil Henrique Marins, de 42 anos, narrou o desespero do pai em busca dos filhos em meio ao mar de lama, pedras e galhos retorcidos. “Eu tinha acabado de sair daqui, mas quando ouvi o barulho voltei correndo. Encontrei Evandro enlouquecido, cavando com as mãos e chamando pelos filhos. Eu também tenho dois filhos da idade dos meninos que morreram. Por isso, eu não suportei e chorei junto com ele. É a coisa mais triste que já presenciei na minha vida”, lamentou.

Os irmãos foram sepultados no cemitério de Boa Esperança, Segundo Distrito de Rio Bonito, por volta das 19h de segunda-feira (29). Uma grande quantidade de pessoas acompanhou o funeral.

As buscas

Assim que a terra desceu, as buscas pelas crianças começaram com os próprios membros da família e vizinhos. Entre os curiosos e gente da família que estavam no local, no dia seguinte, a revolta era geral com a prefeitura de Saquarema. Segundo os moradores da localidade, uma ponte que há cerca de três anos estava em péssimas condições, caiu e impediu a chegada dos homens do Corpo de Bombeiros. A corporação reconheceu que os soldados demoraram a chegar e alegou que o local é de difícil acesso. Os soldados teriam deixado as viaturas na estrada e teriam andado cerca de 5 quilômetros, em meio a um pasto, para chegar ao local do deslizamento, cerca de uma hora após o acidente.

O prefeito José Luiz Antunes (DEM), juntamente com alguns secretários e guardas municipais, acompanhou e participou das buscas. Ele também disponibilizou máquinas e homens para auxiliar no trabalho de resgate dos corpos. Segundo moradores da área, a prefeita eleita de Saquarema, Franciane Melo e o ex-prefeito Dalton Borges apenas estiveram no local. O instalador Sandro Pinheiro da Silva, de 35 anos, primo de Diana Mendonça, era um dos mais irritados com o descaso das autoridades saquaremenses. “Se não fosse Zé Luiz Mandiocão os corpos ainda estavam embaixo dessa lama. Esse pessoal de Saquarema está de brincadeira. Nós estamos abandonados. Mandiocão é prefeito de Rio Bonito e ajudou mais do que essa turma de Saquarema. Por isso que ganharam a prefeitura (de Saquarema) de forma suspeita”, desabafou. Uma familiar das vítimas, mais exaltada, disse que a prefeita eleita de Saquarema, Franciane Melo (PMDB), foi ao local somente no outro dia. “Ela ainda teve a cara de pau de chegar aqui de roupa branca. No meio desse lameiro, de roupa branca? É brincadeira! Vamos sofrer mais quatro anos”, alfinetou.

Localização dos corpos

Cerca de 50 homens do Corpo de Bombeiros de Saquarema e da Defesa Civil trabalharam em busca das vítimas. Por volta das 2h30min, o corpo de Carlos Udison foi localizado embaixo de uma pedra. Já o seu irmão, Evandro Júnior foi encontrado a dois metros do irmão por volta das 5h. Outro motivo de irritação para a família das vítimas foi a demora do rabecão, que chegou às 11h50min. Os corpos estavam dentro de uma das casas do quintal, que não foi atingida pela avalanche.

Alerta

Há cerca de 15 dias, Alício Portolino das Chagas, de 76 anos, morador da localidade de Rio Mole desde a infância e vizinho das vítimas, teria alertado o pai das crianças que a casa estava em um local perigoso. Conhecedor da geografia da localidade, ele teria dito a Vando que a residência foi erguida em um local que é o caminho para a água descer. Uma espécie de gruta, onde duas montanhas se encontram.

Outras tragédias

A localidade de Rio Mole ficou conhecida nacionalmente em 31 de abril de 2006, quando por volta das 18h, o avião bimotor caiu na Serra da Castelhana, distante cerca de três quilômetros de onde ocorreu o deslizamento do último domingo, matando 19 pessoas. Em 1971, também houve um deslizamento de terra, há menos de 1 quilômetro de onde ocorreu o deslizamento que vitimou os irmãos Carlos Udson e Evendro Júnior. Na ocasião, a tragédia causou uma comoção em Rio Bonito e em toda região, porque a mãe e dois filhos morreram soterrados.

Sonhos destruídos

O deslizamento de terra que vitimou a família Ferreira no último domingo (29), será um divisor de águas na vida do feirante Vando Ferreira e de sua esposa Diana Mendonça. Moradores da Estrada de Rio Mole, em Saquarema, próximo à divisa com Rio Bonito, a família foi destruída por uma avalanche de pedras e lama que tirou prematuramente a vida dos irmãos Carlos Udison e Evandro Júnior Mendonça Ferreira. Eles morreram soterrados e esmagados pela terra. Em segundos, o casal ainda perdeu o patrimônio que construíram juntos com esforço e luta ao longo dos últimos anos. Carlos Udison faria cinco anos em fevereiro de 2009. Já o seu irmão, Evandro Júnior, havia completado 12 anos em outubro.

Móveis, mantimentos, roupas, calçados, eletrodomésticos, panelas, comida pronta, doces, alimentos típicos de Natal e um álbum de fotos da família que já não existe mais, estavam misturados aos escombros. Segundo informação de um vizinho, o dinheiro ganho na feira mais cedo, que ele costuma guardar em casa, também deve estar soterrado junto com a esperança de um ano novo melhor que era acalentado pela família. Aos sábados, Vando trabalha na feira de Araruama, e aos domingos em Bacaxá. Os dois irmãos costumavam ajudar os pais no trabalho. Os prejuízos materiais, casas, carros, motocicletas, dinheiro, entre outras coisas, tudo é recuperável, mas para as inocentes vidas perdidas não existe esperança.