
“Inda é longe Canaã?”
O sesquicentenário (150 anos) do poeta riobonitense B. Lopes, que aconteceu no último dia 19 de janeiro, foi um dos destaques do programa “O Tempo em Rio Bonito”, que nós apresentamos todos os domingos, a partir das 9h, na rádio Sambê FM (105,9). O poeta foi homenageado nos dias 18 e 25 de janeiro. Além de termos o privilégio de ouvirmos Leir Moraes e Maurício Badr, dois ícones da cultura e da intelectualidade riobonitense, falarem sobre a importância de B. Lopes para a memória de Rio Bonito, nós também recebemos o advogado Leonardo José Moura do Amaral, um descendente do poeta e da sua primeira musa inspiradora Xandoca, que na verdade eram primos.
O advogado levou vários jornais antigos de Rio Bonito, de Niterói e até de Minas Gerais. Todos abordavam o brilhantismo de B. Lopes. Entre esses periódicos, chamou a minha atenção o jornal “O ESTADO”, da cidade de Niterói, que circulou no dia sete de maio de 1946. Ele trouxe uma longa reportagem sobre o centenário de Rio Bonito. Além de uma fotografia do prefeito da época, Eugênio Cordeiro, a matéria tem um Box, onde homenageia B. Lopes e critica o fato do poeta ter sido esquecido pelos intelectuais da época. Ou seja, a desvalorização dos nossos vultos não é de hoje. Entre as matérias sobre o centenário, existe um título que achei fascinante: “Centenário de Rio Bonito, a Canaã Fluminense”. Segundo o jornal, a prosperidade alcançaria Rio Bonito em pouco tempo.
Interessante que 48 anos depois, em 26 de março de 1994, o antigo jornal Serramar circulou com notícias que comprovam que a tal Canaã, infelizmente, nunca chegou. Aliás, pelo que temos lido no FOLHA DA TERRA, a tal Canaã continua bem longe de nós. Nesse jornal Serramar, eu encontrei uma matéria com o seguinte título: “fortes chuvas fazem vítimas em Rio Bonito”. Ela conta a história de Daniele Gomes, que morreu aos cinco anos de idade, devido a um deslizamento de terra que aconteceu por volta das 2h da madrugada, na Rua Coronel Marcílio, nº 115, no bairro Bosque Clube. O acidente também vitimou Lucinéia da Conceição, mãe da criança, que sofreu uma fratura de fêmur. O jornal dizia ainda, que o bairro era carente e a associação de moradores pedia que a prefeitura realizasse obras de contenção em algumas encostas. Além disso, eles cobravam amparo às famílias que tiveram as suas casas interditadas.
O relato não para por aí. De acordo com o jornal, o servidor municipal Nilton Freire da Fonseca, pai da criança que morreu, tentou se socorrer com o então prefeito José Luiz Antunes. O prefeito pediu que Nilton buscasse ajuda, com a secretária Municipal de Obras e Serviços Públicos, na época, Carmem Mota. Segundo o jornal, a secretária pediu que Nilton procurasse a Câmara Municipal, porque para que ela pudesse ajudá-lo, os vereadores teriam que aprovar uma lei. A postura da secretária teria irritado o então Presidente da Casa, Paulo Moura e os demais vereadores. O mais interessante é que na última semana, eu escrevi aqui na FOLHA, a história da dona de casa Sebastiana dos Santos e do zelador Adão Pereira da Costa, que além de morar no mesmo Bosque Clube, também se queixam que quando tentam se socorrer com a prefeitura, eles passam em vários setores, “mas ninguém resolve nada”. Aliás, o prefeito tem criticado a Câmara de 2008, por ter (em sua maioria) rejeitado a Lei Orçamentária Anual de 2009. Essa seria, segundo o prefeito e seus assessores, a razão da ausência da prefeitura no atendimento as vítimas das chuvas. As histórias não se parecem?
E a tal Canaã profetizada pelo jornal “O ESTADO”, em 1946? Cadê? Na bíblia, no livro de Êxodo, está registrada a histórica saída dos Hebreus, do Egito, para a terra de Canaã, uma terra fértil e muito próspera. Mas como os hebreus duvidaram de Deus, a viagem que deveria terminar em semanas levou 40 anos para ser concluída. Por isso, já que Rio Bonito seria a “Canaã Fluminense”, penso que nós ainda estamos caminhando no deserto. O problema é que eu fiz algumas contas, e no próximo dia sete de maio essa profecia completará 63 anos e ainda estamos no deserto. Uma melodia evangélica diz o seguinte: “o caminho é longo e mau e nossos pés feridos ‘stão, inda é longe Canaã? Inda é longe Canaã? No deserto anelamos mais e mais Sua proteção. Estará inda longe Canaã? Nós seguimos por desertos, o caminho do cristão. Inda é longe Canaã? Inda é longe Canaã? Quantas vezes têm faltado nosso leito, nosso pão. Estará inda longe Canaã?”.
Penso que nós, riobonitenses, nos encaixamos no refrão da mesma música, que diz assim: “stamos fracos, tão cansados! Já viajamos por valados, por deserto abrasador! Stamos fracos, tão cansados! Estará inda longe Canaã?”. De acordo com a Bíblia, para entrar em Canaã, os hebreus tiveram que atravessar o rio Jordão. Deixo então uma sugestão para nós: que a partir de hoje, os grupos políticos, a sociedade civil organizada e as pessoas atingidas e não atingidas pelas chuvas, se empenhem em alcançar benefícios que visem o bem da coletividade e não para o próprio umbigo. Penso que quando isso acontecer, nós estaremos mais próximos do rio Jordão. Deixo então a pergunta: “Inda é longe Canaã?”.