Mobilização dos universitários: um divisor de águas

Na tarde da última terça-feira (25), os estudantes universitários de Rio Bonito, que utilizam o transporte gratuito oferecido pela Prefeitura Municipal, fizeram um movimento para acordar a nossa letárgica sociedade riobonitense. Não precisa ser sociólogo para perceber que há muito tempo estamos deitados preguiçosamente em berço esplêndido. Aliás, qualquer som que incomode esse sono nunca é bem vindo. Também não precisa ser muito observador, para perceber que qualquer alarido que incomode os sonhos dessa bela adormecida, geralmente causa insatisfação.

Contudo, os universitários puseram em prática um antigo pensamento: “cara feia comigo é fome!”. Dizemos isso, porque eles não se importaram com as consequências e foram à luta! Não conseguindo mais suportar a superlotação dos ônibus universitários, os estudantes iniciaram uma manifestação no Mercado Municipal – ponto de embarque dos ônibus que rotineiramente viajam com cerca de 150 passageiros em pé –, caminharam pela Rua Dr. Francisco de Souza e XV de Novembro até chegar a Prefeitura, onde foi o ponto alto do protesto.

Eu gostaria de felicitar o espírito público daqueles que oportunamente se insurgiram. Contudo, condeno aqueles que ficaram de longe sem se envolver no processo. Se o sujeito não concorda com a manifestação, está tudo bem. Mas aqueles que alegaram vergonha, timidez, covardia e indiferença... Esses deveriam rever seus conceitos. Aliás, não é difícil encontrar pessoas acusando esse e qualquer movimento dessa natureza de “desordem”. Entretanto, é bom saber que esse pensamento nasce nas entranhas de uma elite cínica, que também se acostumaram a chamar os organizadores dessas manifestações de baderneiros e arruaceiros... Porém, esse título só aparece quando a arruaça está contra os interesses hegemônicos.

Nunca é demais lembrar, que quando dizemos que esse movimento pode ser um “divisor de águas” em Rio Bonito, nós estamos fazendo uma referência a manifestações que deveriam ocorrer por conta de acontecimentos recentes que estão esquecidos ou abafados em nossa cidade. Veja só: os desabrigados vitimados pelos temporais de novembro do ano passado – quase um ano depois, eles continuam em casa de parentes ou voltaram para as casas condenadas pela Defesa Civil – poderiam utilizar esse artifício até que fossem atendidos não só pelo Executivo municipal, mas também pelos chefes do Executivo estadual e federal, que até agora nada fizeram.

Os moradores do Cajueiro, também deveriam imitar o exemplo dos universitários, pois essa localidade foi alvo de desavergonhadas promessas que não foram cumpridas. Penso que também poderiam se mobilizar e imitar os universitários, os cerca de 700 funcionários da cooperativa que foram demitidos há cerca de 30 dias. Como em muitos casos, esse emprego era a única forma de subsistência desse trabalhador, penso que além dos apitos e narizes de palhaço, os desempregados deveriam fazer um panelaço, numa referência a dificuldade de botar comida dentro de casa.

Os funcionários efetivos da Prefeitura Municipal também poderiam usar o mesmo artifício na luta pelo prometido e esquecido Plano de Cargos e Salários, um projeto que frequenta todos os palanques na época das eleições, porém nunca saiu do papel. A humilhante e indecente fila que se forma na porta da Caixa Econômica Federal, nos dias de pagamento do funcionalismo municipal, também poderia ser contemplada com uma manifestação dessa natureza. Aliás, creio que será melhor para por aqui, porque corremos o risco de virarmos o ano fazendo manifestações, já que existe muita coisa fora de lugar em Rio Bonito.

Mas voltando aos estudantes, depois de um suposto “bate cabeça” no alto escalão do Executivo, três universitários foram recebidos no gabinete do prefeito, pelo chefe de gabinete, Edelson Antunes, pelo procurador geral Leandro Weber e pelo assessor especial Jerônimo Siqueira Dias. Durante o encontro – tenso em alguns momentos, por conta de algumas colocações do universitário Matheus Prevot – ficou claro que a tropa de choque do prefeito gostaria de resolver imediatamente a questão. Porém, também ficou muito nítido que eles trabalham de mãos atadas, um problema crônico dessa administração.

Mas, desse acontecimento, preciosas lições podem ser tiradas. Os universitários, sempre céticos e duvidosos, perceberam que a força para mudar está nas mãos do povo. Basta se mobilizar! Já o poder público, deve ter percebido profissionalismo não é um instrumento apenas para ganhar eleição. Ele também é indispensável ao longo do mandato, porque como o nível intelectual da população vai aumentando – as pessoas vão se educando e adquirindo cidadania – o comportamento amador dos detentores do poder começa a ser percebido e comentado.

Entretanto fica aqui uma sugestão: que tal utilizar esse ímpeto para cobrar o ensino superior em Rio Bonito? Por que se a Prefeitura adquirir um ônibus a cada ano – o número de universitários aumenta a cada semestre –, em alguns anos, a frota de ônibus do município vai botar inveja nas empresas São Geraldo e Rio Ita. Para concluir, eu não poderia me furtar de dizer que depois de quatro anos fazendo a cobertura das sessões do Legislativo, pela primeira vez eu vi a Câmara Municipal ser realmente a “Casa do povo”, porque depois de serem atendidos na Prefeitura, os universitários foram buscar ajuda também com os vereadores. Encerrada a sessão, eles falaram e cobraram soluções. VIVA A DEMOCRACIA!