Crianças e Professores

O ucraniano Nikolai Vasilievich Gogol é um dos escritores mais conhecidos do mundo. No Leste Europeu, ele é uma espécie de Lima Barreto. Segundo a biografia do escritor, ele ouvia vozes, sofria com profundas depressões, tinha presságios de morte e num ato de loucura queimou boa parte da sua própria obra. Em 4 de março de 1843, o ucraniano morreu com pouco mais de 40 anos. A leitura dos textos de Gogol deixa muito nítido que ele odiava a exploração do homem pelo homem. Ele também reprovava a importação de modelos estrangeiros e o abandono da cultura popular ou nacional.

O escritor é mais conhecido no Brasil pela remontadissima peça “O Inspetor Geral”, de 1836. A pequena vila do interior vai receber um inspetor do governo, que vai chegar icógnito para surpreeender falcatruas. Um “esperto” chamado Khlestakhov, também de passagem pela vila, se faz passar pelo inspetor. Quando chega o verdadeiro, o impostor está com o bolso cheio de dinheiro e noivo da filha do prefeito. Mas é pelo romance “Almas Mortas”, que Gogol se firma como clássico. Ele narra a história de uma espertalhão – mais um – identificado como Tchítchicov, que compra de médios e pequenos proprietários, os seus servos já falecidos. O interesante é que ele comercializa a mercadoria com os grandes proprietários.

O principal ingrediente das duas narrativas é o engano da boa fé. Os textos também fazem alusão ao privilégio, a trapaça e a mediocridade, geralmente utilizadas como forma de dominação pela maioria das pessoas que ocupam posições de poder. Essa semana nós comemoramos duas datas significativas. No dia 12, o Dia da Criança e no dia 15, o Dia do Professor. Mudar uma realidade que já era abordada por Gogol há cerca de 150 anos, passa por esses dois atores sociais: a criança e o professor.

No último dia 8 de outubro a Prefeitura Municipal de Rio Bonito, através da Secretaria de Obras e Serviços Públicos (Semosp), demoliu o banheiro público da Praça Fonseca Portela. Embora tenha tido um grande apoio popular, a ação foi reprovada por uma parte significativa da sociedade. Entretanto, penso que as circunstancias políticas que envolvem a construção e a demolição do famigerado pinicão deveriam estar sendo debatidas com mais firmeza e menos cinismo. Nunca é demais lembrar, que para ser edificado ele foi idealizado, planejado e aprovado.

Em Rio Bonito, o que tem cheiro de podre vira tabu, e o pinicão está nesse bolo, porque existem perguntas sobre ele que ninguém responde ou não quer responder, mas é preciso perguntar:

*Já que existia um descontentamento popular, por que a classe política, da época, não questionou a realização da obra?

*Se não agradava, porque o Executivo da época manteve o projeto?

*A insatisfação popular não deveria ser levada em conta pelos senhores vereadores antes de aprovarem a criação de um pinicão na Praça Fonseca Portela?

*Por que algumas pessoas, no passado e no presente, administram o que é comum como se fosse seu?

*Por que os contrários a construção e os contrários a demolição, não se posicionam com firmeza nesse debate?

Para que a gerações futuras abordem os temas tabus com naturalidade, façam perguntas sem medo de represálias e não tenha a boa fé explorada, as crianças devem ser ensinadas pelos seus professores a questionar e defender as suas ideias com firmeza. Contudo, nesse momento duas perguntas reflexivas são necessárias: “as crianças tem liberdade para pensar e exercer o seu senso crítico ou são castradas pelo professor?”. Por outro lado, “a escola permite que o professor dê liberdade aos alunos, ou esse professor também é castrado por um sistema de educação ultrapassado?”.

Enquanto a escola não for um lugar de livre expressão, a sociedade será composta por espertinhos e espertalhões, bobinhos e bobões, malandros e otários, assaltantes e assaltados, vendedores e compradores de voto, entre outras coisas. Os desvios de conduta devem ser corrigidos, mas as novas ideias devem ser respeitadas, porque a cultura é viva e está em constante movimento. Não aceitar essa realidade é impedir o progresso de qualquer sociedade e as crianças e professores são peças fundamentais nesse processo evolutivo.