A Bibliotecária e a Biblioteca Pública

Ainda lembro o dia que entrei na Biblioteca Municipal Celso Peçanha pela primeira vez. Eu tinha 10 anos, estava na 4ª série e procurava um livro chamado “O Menino do Dedo Verde”, de Maurice Druon. O meu primeiro contato foi com Silvana, Sandra e Brígida, mas uma mulher que estava sempre sentada no fundo da Biblioteca atraia a minha atenção. Disseram-me que ela era a bibliotecária e o seu nome era Dona Carminha. Aquela mulher tinha duas características que ainda estão bem vivas em minha memória: a tonalidade da voz, que eu pensava ser baixinha porque estávamos dentro da Biblioteca, e o fato manter um semblante sorridente, mesmo quando estava séria. Talvez seja por isso, que passados 24 anos, Dona Carminha parece não ter envelhecido.

Na última quarta-feira (28), durante a abertura da Primeira Conferência Municipal de Cultura de Rio Bonito, a bibliotecária Maria do Carmo Soares Cordeiro, hoje, diretora do Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, aquela mesma Dona Carminha dos meus tempos de infância, contou ao prefeito José Luis Antunes (DEM), uma história verídica e vivida por personagens. Ele ouviu a seguinte narrativa:

 

“Corria o ano de 1977, a bibliotecária, novinha, recém-casada, e mãe de dois filhos, voltou para a sua terra natal. Era impossível criar os filhos pequenos na cidade grande. Quem iria ficar com as crianças? Ela deixou o seu cargo na Biblioteca Estadual de Niterói, graças a Leir Moraes e ao secretário de Estado, que conseguiu fazer a transferência. A bibliotecária foi trabalhar na Prefeitura, onde hoje é a Secretaria Municipal de Administração, porque lá funcionava a Biblioteca Pública, onde ela encontrou um resto de museu... Peças soltas, que tinha sido uma das intenções de um grande prefeito chamado Edgard Monnerat Solon de Pontes. Isso, em 1969.

Neste resto de museu, a bibliotecária encontrou um livro (ela mostra o livro), que para mim é história, memória e patrimônio, porque tem a assinatura do prefeito. O livro é para registrar a presença das pessoas nas atividades culturais de Rio Bonito e ali começava um grande pacto para a cultura no município. A bibliotecária continuou colhendo assinaturas nos eventos que realizava na Biblioteca Pública. Então, nós temos, por exemplo, a Ata da inauguração da primeira exposição de pintura, de 1978. Eram obras de Benevides Filho.

Em 1977, o irmão da bibliotecária, Luis Francisco, foi admitido no serviço público e ela pediu a ele que fizesse a planta de uma Biblioteca Pública. Ele, imbuído das melhores intenções, fez um projeto cujas paredes do prédio eram de vidro. Ela perguntou: “por que você vai botar vidro?”. Ele respondeu: “Primeiro porque é mais barato, e segundo, porque quem passar vai ver você trabalhando com os livros”. Foi feita a planta, ela foi publicada num jornal da Prefeitura, mas o projeto foi preterido e um que havia sido feito por um cidadão que não era de Rio Bonito foi escolhido (o prédio atual). Eles ficaram desanimados? Não. “Vamos continuar”. A partir daquela época, ele toda semana passava na Biblioteca, tomava um café e perguntava se ela estava precisando de alguma coisa. Ela dizia: “a caixa d’água está vazando, tem goteira”. E ele ajudava.

Há cerca de três anos ela recorreu a ele. “Pelo amor de Deus, me ajuda. A Biblioteca é tão pequena, são tantos livros, as crianças... Eu não tenho espaço. Ocupa aquele local ao lado da Biblioteca”. Ele disse: “vamos fazer um projetinho. O que é importante?”. Ela disse: “um bicicletário, uma meia lua de cimento, onde se faça teatro, contação de história. Agora se você puder puxar uma varanda para o terreno baldio e abrir uma porta grande, meu Deus, quem quiser ler ao ar livre, vai poder ler embaixo do flamboyant. E ele fez o projeto, mas não foi possível, e não me perguntem por quê?

Depois, ele disse à bibliotecária: “nós temos um plano de fechar a rua dos bancos e a sua Biblioteca vai ficar linda!”, mas também não foi possível. Mais tarde, houve – não me perguntem, como ou por que – uma sessão de terreno. Ele percebeu que ela sentiu, mas ele se manteve e disse a ela, prefeito, a coisa mais bonita que poderia dizer: “Carminha, não me cobre muito. Tenha confiança em Zé (se referindo ao prefeito). Ele tem um jeito que não é igual aos outros, mas eu tenho certeza que ele está pensando o melhor”.

No dia 19 de agosto desse ano, eu estava na Cultura e a secretária pediu para eu descer para levar as chaves da Biblioteca para Luisinho, porque ele ia levar alguém lá. Eu desci, ele parou o carro e disse: “entra”. Eu respondi que estava trabalhando. Ele disse que também estava. “Eu preciso falar com você, entra”. Se eu soubesse o que iria acontecer, eu não daria a volta no quarteirão. Eu pediria que ele fosse para Tomascar, Rio Seco, Basílio... Mas ele disse o seguinte: “minha irmã fica tranquila... Eu vou levar umas pessoas para ver a Biblioteca, o prefeito pediu, mas não fique aflita”. Ele me deixou no lugar que me apanhou e nos despedimos”.

Com lágrimas, Carminha concluiu a emocionante narrativa dizendo as seguintes palavras para o prefeito: “eu vou continuar a luta pela Biblioteca Pública. Eu sei que não posso mais contar com o meu engenheiro, mas eu posso contar prefeito, com o senhor, com o presidente da Câmara, com todos que estão aqui, porque a Biblioteca... Prefeito, é a alma desta cidade”.

Carminha foi aplaudida de pé, mas você logicamente vai me perguntar: “e o prefeito? O que ele disse? Bem... ele falou das obras que inaugurou e daquelas que ele quer inaugurar.