A Serra do Sambê é “favela”?

Dia desses, numa oficina, enquanto conversava com algumas pessoas, uma delas, talvez por desconhecer o meu endereço – moro na Serra do Sambê desde que nasci – comentou que boa parte da sociedade riobonitense diz que a Serra é a “favela” de Rio Bonito. Confesso que essa declaração me incomodou bastante, sobretudo por ela demonstrar um profundo desconhecimento do nosso bairro, habitado na sua esmagadora maioria, por pessoas humildes, mas todas trabalhadoras e honradas.

Depois de refletir sobre o assunto decidi escrever a respeito, não para defender a Serra do Sambê, porque ela não precisa disso, mas para fazermos uma reflexão sobre quem seriam as pessoas que espalham esse pensamento preconceituoso. Para começar, é necessário meditarmos nas palavras de Jesus Cristo, escritas por S. Mateus, no capítulo 6, versos 22 e 23. Diz assim: “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso...”. Essa afirmativa dá origem ao provérbio que diz: “os olhos são as janelas da alma”.

Só considera a Serra do Sambê uma “favela”, aqueles que utilizam o bairro para buscar produtos, geralmente encontrados numa “favela”. Contudo, em Rio Bonito, esses produtos são facilmente encontrados em Rio Vermelho, Praça Cruzeiro, Boqueirão, Rio do Ouro, Basílio, Caixa D’Água e muitos outros. Também encontramos esse comércio em Boa Esperança.

Atualmente, o “movimento” – termo técnico referente aos negócios da contravenção, do crime e do tráfico – quase não é percebido na Serra do Sambê. O que não podemos dizer dos endereços nobres da cidade, como Praça Fonseca Portela e Av. Sete de Maio. Entretanto, num passado recente, o comércio de drogas florescia na Serra do Sambê. O “movimento” acontecia numa das principais esquinas do bairro e era muito forte. Embora não concordassem, os moradores se mantinham calados por motivos óbvios.

O que mais atraia, porém, a atenção dos serranos, eram os clientes da suposta “boca de fumo”. Para começar, eles vinham do Centro da cidade, geralmente em carros caros ou motos novas. A maioria esmagadora dos clientes era adolescente. Outra coisa interessante é que eles pagavam a encomenda com notas altas (R$ 50 e R$ 100), que nós sabemos não serem comuns ao bolso dos pobres. É lógico, que crianças com idade entre 13 e 17 anos, também não possuem todo esse dinheiro. Isso nos leva a crer, que alguém financia esses vícios. Mas quem?

Bem... Com tristeza, nós concluímos que papai e mamãe estão fazendo esse papel. Na verdade, os pais ou perderam a autoridade sobre os seus filhos, ou cinicamente transferem as suas responsabilidades para a escola, a igreja, a polícia, outras instituições e aproveitam para culpar as localidades pobres e da periferia. Se eles (papais) ficam nos botequins chamando a Serra do Sambê de “favela”, elas (mamães) perdem horas e horas nos salões de beleza e academias reproduzindo esse discurso.

A Serra do Sambê com certeza não é “favela”, longe disso. Porém, é possível que essa “favela” esteja no interior do quarto do filho (a) daqueles que fazem essa afirmativa. Será que essas os pais ainda cultivam o hábito de conferir o que acontece no quarto, sempre de porta fechada, do filho (a)? Penso que todos nós, que somos pais, deveríamos refletir sobre um antigo e verdadeiro pensamento: “seja o pai do seu filho, antes que um traficante o adote!”.