Flávio Azevedo

Troncos retorcidos, mato, terra, capim, teias de aranha, escombros, entulhos, pedaços de mobília e um forte cheiro de mofo. Esse não é o cenário fictício de um filme de terror, mas a realidade que a nossa reportagem encontrou no bairro das Olarias, um ano depois da tragédia da tarde de terça-feira, 25 novembro de 2008. Na ocasião, um deslizamento de terra causou a morte de Ana Beatriz da Conceição Rocha (3) e Ana Cláudia Rodrigues Pereira (23). A avalanche destruiu quatro residências, atingiu várias casas e feriu outras oito pessoas. As pessoas atingidas pela catástrofe se queixam de descaso e abandono por parte das autoridades. “O que nós recebemos foi o carnê do IPTU, com uma cartinha pedindo que o imposto fosse pago para que a Prefeitura pudesse ajudar as vítimas das chuvas, mas cadê a ajuda?”, questiona uma das vítimas.

O servente Geraldo Carvalho (53), que teve a residência atingida, na ocasião da tragédia, estava em casa na hora do deslizamento e relembra como tudo aconteceu. “Eu ouvi um estrondo muito alto e corri para ver o que estava acontecendo. Quando cheguei do lado de fora da casa, eu vi a terra deslizando e levando tudo que achava pela frente”. O servente levou a nossa reportagem ao local onde havia três residências que foram totalmente destruídas pela avalanche.

Ainda assustado ele comenta que, na ocasião, não soube o que fazer. “Nas casas havia pessoas queridas, mas como a minha casa também estava sendo invadida pelo barro eu não sabia o que fazer”. Durante a entrevista, Geraldo mostra um cimentado que existe ao lado da sua casa e com tristeza comenta: “aqui morava a minha cunhada. Era uma casinha de três cômodos, que foi totalmente destruída. Além de perder a residência ela também perdeu a filha”, lamentou. Providencialmente, o imóvel do servente Geraldo Carvalho permaneceu de pé, ao contrário das residências erguidas ao entorno da sua casa, que foram todas destruídas pela avalanche formada por pedras, lama, árvores e capim.

Descaso e abandono

De acordo com o servente, chefe de uma família composta por outras quatro pessoas e uma criança, as pessoas vitimadas pela tragédia do bairro das Olarias não tiveram nenhuma ajuda das autoridades. Durante a entrevista ele desabafou: “nós só ouvimos promessas. Um ano se passou e ninguém nos deu atenção! Nós continuamos em dificuldades. Os políticos só conhecem o nosso endereço quando precisam do nosso voto”. O discurso de Geraldo alterna momentos de desesperança e revolta. Ao lado da filha Daniele Oliveira Reis (24), ele questiona o paradeiro do recurso de R$ 1 milhão doado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). “Dizem que o município recebeu R$ 1 milhão para nos ajudar, mas onde está esse dinheiro? Porque, um ano depois, nós não recebemos nenhum tipo de ajuda?”.

De acordo com o servente, ele reconstruiu a sua casa, retirou todo barro que havia invadido os cômodos e limpou o local onde era a casa da sua cunhada sempre sozinho. “Não recebi qualquer tipo de ajuda. Disseram que teríamos direito a receber um aluguel, mas eu não recebi nada”. Ele mudou-se com a família para a localidade de Praça Cruzeiro, onde morou de dezembro do ano passado até agosto desse ano. O servente também reclamou da suspensão da cesta básica que recebia. De acordo com ele “o benefício foi suspenso, mas não sabemos o porquê”.

Voltar a morar na casa, que ainda está interditada pela Defesa Civil foi a solução encontrada pela família. “Como nós paramos de receber a cesta básica, ou nós pagávamos o aluguel ou comprávamos comida. Mas não moramos nesse lugar porque queremos. Estamos aqui porque não temos para onde ir”. Atenta a entrevista do pai, Daniele questionou a contenção de uma encosta na Rua Lauro Araújo da Silva Júnior (final da Rua da Conceição, no Centro) e o destino que será dado a verba que o município vai receber do governo do estado. “Eu acho que as vítimas das chuvas tinham mais necessidade daquela contenção. Acho também, que a verba que o governador Sérgio Cabral disse em outubro que vai mandar para Rio Bonito deveria ser utilizada no amparo as vítimas dos temporais e não para fazer praças”, reclamou.

Abandono e prejuízo

Outra vítima inconformada com a falta de apoio das autoridades é o aposentado Belmiro Luiz de Carvalho (66). Ele mora no bairro das Olarias há 16 anos, e a sua casa, também foi atingida pela avalanche. O aposentado revelou que antes da tragédia, ele iria mudar-se e a casa estava à venda. Mas, de acordo com ele, depois do deslizamento que atingiu a sua propriedade, o imóvel ficou desvalorizado e, “hoje, estou entregando por menos da metade do preço que eu pretendia”. O aposentado comentou também, que recentemente apareceu uma pessoa interessada em fechar negócio, mas como a casa está interditada pela Defesa Civil, ele não pode concretizar a venda.

O aposentado comentou também, que algumas semanas depois da tragédia, ele e outras vítimas das chuvas foram chamados a Secretaria de Trabalho, Habitação e Bem-Estar Social, “mas até agora nada do que foi combinado aconteceu. Pediram os nossos documentos, fizeram um cadastro para ser encaminhado ao governo do estado, foi isso que nos disseram, mas até agora continuamos na mesma situação”. O aposentado disse ainda, que depois do episódio do dia 25 de novembro de 2008, a sua esposa ficou com sérios problemas de saúde. “A esposa ficou muito abalada. Não fica em casa sozinha, um momento que eu saio, quando eu retorno, encontro ela chorando, reclamando que não está bem, mas na verdade, é tudo trauma do problema que nós enfrentamos”, desabafou.