Flávio Azevedo

O saque a carga de um caminhão que tombou no Km 11, da RJ – 124 (Via lagos), na manhã do último dia 3 de dezembro ainda está repercutindo e promete novos desdobramentos nas próximas semanas. A flagrante participação de funcionários do município ao saque, e as imagens de um carro oficial transportando uma caixa de bicicleta – fruto da pilhagem – indignou a população. Pelas ruas muitos se dizem com vergonha e afirmam que providências imediatas deveriam ter sido tomadas pela Prefeitura Municipal. É o caso do servente José Francisco da Silva, de 40 anos. De acordo com ele, esse tipo de comportamento dá a ideia de que as pessoas pobres são desordeiras e não respeitam a propriedade alheia.

Duas adolescentes que pediram para não ser identificadas, contaram a nossa reportagem, que os seus familiares que moram fora de Rio Bonito assistiram a reportagem e imediatamente ligaram para comentar o assunto. “Nós nem sabíamos de nada. Ficamos sabendo através da nossa prima que mora em Niterói. Depois que nós vimos a reportagem na internet. Meus primos dissera para o meu pai que vão querer ganhar uma bicicleta de presente de Natal”. Já a outra adolescente, comentou que os seus parentes de outros municípios brincam dizendo que vão vir comprar bicicleta em Rio Bonito, porque aqui elas estão em liquidação.

Desencontro nos esclarecimentos

Causou estranheza, a postura do assessor da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos (Semosp), Marcos Antonio Duarte, o Marquinhos da Obra. Embora em nenhum momento, ele apareça se apropriando de alguma mercadoria, questionado pelo repórter Vinícius Assis se era funcionário da Secretaria de Obras, Marquinhos negou. Já o major Márcio Garcia, coordenador da Defesa Civil da cidade, que aparece nas imagens interferindo na ação dos saqueadores, aparece na matéria, dizendo que não viu nada.

De acordo com a reportagem, a Intertv entrou em contato com a prefeitura de Rio Bonito, que confirmou a presença de funcionários públicos no local do acidente, mas disse que eles não seriam punidos, porque não levaram nenhuma mercadoria, ao contrário do que foi mostrado na reportagem. Ainda de acordo com a prefeitura, os servidores estiveram no local porque a carga seria doada ao município, mas a empresa responsável pela mercadoria negou que os produtos seriam doados. A reportagem da GAZETA questionou a origem da nota que foi divulgada para a imprensa, mas como sempre, ninguém quer comentar o assunto.

Quem é o culpado?

Marquinhos da Obras esteve voluntariamente no programa “O Tempo em Rio Bonito”, da rádio Sambê FM (98,7), no último dia 6 de dezembro. Questionado porque negou que trabalhava na Secretaria de Obras, ele reconheceu que errou e disse que “determinadas coisas nós não esperamos. Confesso que o repórter me perguntou alguma coisa, mas a minha intenção era não dar entrevistas. Segundo Marquinhos, a responsabilidade sobre os funcionários que estiveram ali seria do Coordenador de Defesa Civil do Município, o major Márcio Garcia. “Não queremos incriminar ninguém, mas o responsável do local era o Coordenador da Defesa Civil, que estava ali respondendo pela Prefeitura de Rio Bonito”. Ainda segundo o assessor, esse teria sido um dos motivos pelo qual ele não queria dar entrevistas.

O coordenador de Defesa Civil, o Major Márcio Garcia, disse que o funcionário que aparece se apropriando de alguns produtos da carga, devolveu o que pegou e o Grupo Pão de Açúcar, que é o dono dos produtos já foi informado que o material está a disposição da empresa. Nossa reportagem teve acesso aos produtos devolvidos: cinco potes de palmito, seis garrafas de água e uma bicicleta.

O major concordou com Marquinhos da Obra e reconhece que ele realmente era o responsável pelo local. Segundo ele, a sua falha foi esperar que a seguradora viesse resgatar a carga. “No início, o número de populares era mínimo. Várias vezes eu perguntei aos responsáveis pela carga, que horas os produtos seriam removidos, porque como o número de pessoas aumentava, eu percebi que poderíamos perder o controle da situação”. O coordenador comentou que chegou um momento que ficou impossível conter a multidão e o saque aconteceu.

Ainda de acordo com o major, por ser um momento de muita tensão, o protocolo da Defesa Civil nesses momentos é não se preocupar com as coisas, mas com as pessoas. “Durante um evento desses, as pessoas se agridem, se lançam sobre a carga e podem se machucar com gravidade. Nesse evento, por exemplo, as pessoas atravessavam a rodovia sem nenhum cuidado e o risco de atropelamentos era constante. Nós temos que ter atenção para essas situações”, concluiu.