Eloisa Leandro

Após nove dias de investigações, o inquérito sobre a tentativa de homicídio contra o prefeito de Rio Bonito, José Luiz Alves Antunes, 53 anos, ocorrida no último dia primeiro, foi entregue a Delegacia de Homicídios (DH), no Rio, agora responsável pelo caso. Como divulgado na última terça-feira (8), amigos do prefeito doaram a quantia de R$ 15 mil ao Disque-Denúncia, para ser usada como recompensa a quem der informações que levem a polícia aos autores do crime. Por volta das 13h40 min. daquele dia, o prefeito foi alvejado por dois tiros de revólver calibre 38, um no abdômen e outro na altura da clavícula, quando almoçava na Pensão das Irmãs, na Praça Cruzeiro, em companhia de sua secretária Vera Lúcia Pereira e outro amigo. A polícia divulgou o retrato falado do atirador um dia após o crime, produzido através de informações de quatro das 12 testemunhas ouvidas na delegacia.

“Um grupo de amigos do prefeito fez a oferta de R$ 15 mil para informações sobre o crime. Talvez, a recompensa estimule a população a colaborar com a polícia. Todas as informações são importantes para ajudar a desvendarmos o caso”, ressaltou o delegado Marcello Maia, no início da semana, quando o inquérito ainda estava sob a responsabilidade da 119ª DP (Rio Bonito). Ele pediu que qualquer informação seja passada pelos telefones: 2253-1177 ou 3399-5391. No dia do crime, cerca de mil cartazes foram distribuídos em diversos pontos da cidade com os telefones para denúncia.
De acordo com Marcello Maia, a polícia possui algumas pistas, porém, elas não podem ser divulgadas para não atrapalhar a investigação. Embora a polícia dissesse que trabalhava com três linhas de investigação: crime passional, vingança ou crime político, o delegado não quis revelar qual dos motivos seria o mais provável.

“As investigações caminham muito bem, mas a princípio, não podemos revelar nada. Toda a investigação é sigilosa para chegarmos aos autores do crime o mais rápido possível”, explicou.
Embora a DH tenha assumido o inquérito, policiais da 119ª DP afirmaram que vão continuar a apoiar as investigações até que o crime seja desvendado.

A vida salva por uma questão de minutos

O atendimento imediato e o estoque de sangue abastecido do Hospital Regional Darcy Vargas pelo Banco de Sangue da cidade, salvaram a vida do prefeito José Luiz. De acordo com o cirurgião da unidade médica, local onde o prefeito foi operado e permanece internado, Amirton Correa de Sá, se o atendimento tivesse demorado mais alguns minutos o prefeito não teria sobrevivido, já que sofreu uma grave perfuração no intestino delgado e perdeu muito sangue. Segundo ele, por um centímetro a bala que atravessou a região da clavícula do prefeito não atinge uma vértebra fatal.

“Ele teve muita sorte da bala não atingir uma vértebra fatal, que foi por um centímetro. O atendimento imediato e o estoque de sangue também foram fatores que ajudaram a salvar a vida de José Luiz, pois se demorasse mais alguns minutos ele poderia não ter resistido”, esclareceu o médico, dizendo que durante a operação o prefeito recebeu aproximadamente 2,5 litros de sangue e teve 15 centímetros do intestino delgado retirado.

Apesar da boa recuperação do prefeito, o médico alerta que o quadro do paciente ainda inspira alguns cuidados, tendo em vista que toda cirurgia de intestino está sujeita a contaminação por fezes. Ele informou que a equipe médica está realizando exames de sangue e raio X, quase que diários, fisioterapia respiratória, já que foi necessária a abertura do abdômen, além do prefeito ter sido submetido a uma cirurgia na traquéia há alguns anos atrás. Como José Luiz sempre foi um homem muito ativo, o médico também indicou sessões de fisioterapia para os membros inferiores.

“Toda vez em que o intestino é aberto, a cirurgia está sujeita a uma série de contaminações, devido à presença de fezes. Até agora, os exames não apresentaram nada anormal, mas mesmo assim, ele deve ficar sob cuidados médicos. Ele está recebendo cobertura antibiótica e analgésica e sua reação fisiológica é muito boa. Além de ótimo paciente, sempre cooperativo, o prefeito é muito resistente a dor. Apesar da boa recuperação, ainda não temos previsão de alta médica”, explicou Amirton, lembrando que o prefeito só poderá retomar as atividades normais depois que passar por uma avaliação de médicos de outras especialidades, como: clínico geral, neurologista, cardiologista e outros.

Após passar seis dias se alimentando apenas de soro, José Luiz teve a alimentação por via oral liberada pela equipe médica do Darcy Vargas, na última segunda-feira (7). Segundo o cirurgião, esse era um dos maiores desejos do prefeito no pós-operatório. “Ele sempre brincava, dizendo que soro não tem um gosto muito bom. O prefeito não via a hora de poder se alimentar por via oral. A alimentação é balanceada, leve, nem todos os alimentos estão liberados, já que ele passou por uma cirurgia delicada”, revelou Amirton.

Família vai propor mais segurança a Mandiocão

Durante a entrevista coletiva (10), o irmão do prefeito de Rio Bonito, Carlos Egno Alves Antunes, demonstrou que a família está preocupada com a segurança do prefeito após o atentado. Por ser uma pessoa “simples, humilde e querida pelo povo”, Egno disse que seu irmão nunca imaginou ser alvo de um atentado. Perguntado sobre a ameaça de morte sofrida por José Luiz em janeiro desse ano, ele disse que apenas soube do fato na semana passada, quando veículos de comunicação publicaram a existência de um registro de ocorrência na 119ª DP (Rio Bonito). Por precaução, o procurador do município, Luiz Guilherme Cordeiro, pediu reforço na segurança do município ao secretário estadual de Segurança, Roberto Precioso, essa semana.

“Já pedi reforço da segurança do município ao Estado, e agora vou me encontrar com o secretário de Segurança para discutirmos o assunto”, prometeu o procurador.

Embora não tenha conhecimento de inimigos declarados do seu irmão, Carlos Egno disse que a família pedirá a José Luiz que aceite andar com seguranças.

“Zé Luiz ficou desprovido de segurança por acreditar que todos gostavam dele. Quem fez isso não devia conhecê-lo, pois se conhecesse jamais teria apertado o gatilho. Agora, iremos pedir a ele que aceite cuidar da sua segurança”, afirmou. Na ocasião, Carlos Egno aproveitou para informar que a família ainda não havia perguntado sobre o crime ao prefeito, temendo que ele sofresse desgaste emocional.

Prefeitura organiza coletiva para imprensa

Nove dias após o atentado, membros do executivo organizaram uma entrevista coletiva para a imprensa, no auditório do Hospital Regional Darcy Vargas, na última quinta-feira (10), visando prestar esclarececimentos sobre o estado de saúde de Mandiocão, a situação administrativa do município e também sobre o possível apoio do PFL -- partido de José Luiz -- a alguns candidatos nas eleições de outubro. Na mesa estavam os representantes do Darcy Vargas, o presidente Luis Gustavo S. Martins, o diretor médico Leonardo Laje e o cirurgião responsável pela operação, Amirton Correa de Sá; da família, o irmão do prefeito Carlos Egno Alves Antunes; do executivo, o Procurador Geral Luiz Guilherme Cordeiro e o presidente do PFL no município, secretário de Obras e sobrinho do prefeito, Ronen Antunes. Cerca de 20 jornalistas participaram da coletiva.

Segundo os representantes do Darcy Vargas, o hospital disponibilizou todos os recursos técnicos possíveis para o tratamento do prefeito, apoiado por equipamentos cedidos pela Secretaria Municipal de Saúde, a fim de instalar uma Unidade Intermediária (UI) na suíte, local onde o prefeito se encontra internado. Em sistema de plantão 24h, médicos, auxiliares e técnicos de enfermagem se revezam exclusivamente para acompanhar a recuperação de Mandiocão.

“Todos os recursos técnicos foram disponibilizados e o prefeito apresenta uma evolução satisfatória”, afirmou o diretor médico, Leonardo Laje. Já o cirurgião Amirton Corrêa, lembrou que José Luiz também deve passar por acompanhamento psicológico, após sair do hospital. Durante a entrevista, os representantes do Darcy Vargas agradeceram a confiança da família, esclarecendo que em nenhum momento ela cogitou a possibilidade de transferir José Luiz para outra unidade hospitalar.

Emocionado com o apoio da população, Carlos Egno também fez questão de agradecer a todos que rezaram pela recuperação do seu irmão, a Deus, equipe médica, aos funcionários do hospital, a polícia e a guarda municipal.

“Agradeço em nome da família Alves Antunes por todas as manifestações de carinho e apoio prestadas pela população, equipe médica, funcionários do hospital, sem esquecer primeiramente de Deus por ter poupado a vida de Zé Luiz. Também agradeço a polícia e a guarda municipal, que prontamente tomaram conta da segurança do hospital”, agradeceu Egno, lembrando da aflição da família ao receber a notícia que o prefeito estava baleado.

Apesar da ausência do chefe do executivo, o procurador da prefeitura, Luiz Guilherme, assegurou que todas as atividades administrativas estão sob controle e não sofreram alterações. Segundo ele, José Luiz chegou a despachar alguns processos extraordinários de dentro do hospital no início da semana, pois demonstrava preocupação em resolver pendências administrativas.

“Ele está muito bem, inclusive, despachou alguns processos no quarto. Claro que sua ausência faz muita falta, já que ele é o chefe do executivo, mas a administração está sob controle”, tranqüilizou.
Já o presidente do PFL no município, Ronen Antunes, desmentiu alguns veículos de comunicação que publicaram na semana do crime, que o prefeito estaria apoiando alguns candidatos à próxima eleição. De acordo com Ronen, o partido ainda não se reuniu com o prefeito para definir apoio a candidatos.

“Cheguei a sofrer pressão por parte de alguns candidatos que pediram apoio político para as eleições. As pressões começaram antes do atentado, mas depois se intensificaram. Vamos aguardar a melhora do prefeito para nos reunirmos e ver qual decisão tomar”, revelou Ronen, não descartando que a reunião partidária pode ser realizada até mesmo na suíte de Mandiocão, dentro do hospital.

Prefeito já tinha sido baleado

Essa foi a segunda vez que o prefeito José Luiz Alves Antunes escapou da morte. Ele tem uma bala alojada na 12ª vértebra toráxica, conseqüência de um tiro que levou há cerca de 21 anos, durante uma festa. O cirurgião Amirton Correa de Sá, médico que o operou em ambas as vezes, disse que o prefeito é uma pessoa de saúde excelente e muito resistente. Ele também afirmou, que a permanência do projétil na região cervical do prefeito não trará problemas futuros.

“Ele tem uma excelente saúde. Na primeira vez eu também fui responsável por seu atendimento, porém, não houve necessidade de uma intervenção cirúrgica, porque o local onde a bala se alojou não apresenta risco de trazer problemas. Apenas foi necessária uma drenagem no local”, explicou o médico.
De acordo com o irmão do prefeito e seu chefe de gabinete, Edelson Mário Antunes, Mandiocão foi baleado pela primeira vez quando tentava apaziguar um conflito entre duas pessoas.

“Zé Luiz, com aquele jeito acolhedor, na tentativa de defender a todos e resolver os problemas alheios, acabou se tornando vítima de um tiro”, contou Edelson.