Eloisa Leandro
Diferente das habituais noites tranqüilas da zona rural de Rio Bonito, moradores das localidades de Mata e Tomascar, viveram momentos de terror na madrugada do último dia 10. Após roubarem uma van branca numa residência em Araruama, por volta das 20h do mesmo dia, cerca de seis homens armados com pistolas e encapuzados com tocas ninjas, arrombaram e assaltaram sete residências em diversos pontos da Estrada do Rio Seco, deixando uma pessoa morta e outra baleada. A ação criminosa durou cerca de três horas, das 0h30min. até as 3h30min, tempo em que os bandidos, supostamente drogados, efetuaram diversos disparos dentro e fora das residências. A polícia suspeita que os criminosos conheçam as vítimas, já que em algumas das casas chegaram a chamar os moradores pelo nome. Em uma das casas, os criminosos arrombaram portas e portões de ferro com um tronco de madeira. Apesar de fugir levando dinheiro, jóias, celulares, um aparelho de DVD, relógios de pulso e uma pistola Taurus calibre 380, os assaltantes ameaçaram voltar para matar as vítimas, caso registrassem o fato na polícia.
Acostumado a aproveitar dias de descanso no local, o aposentado Pedro Pires, 56 anos, não imaginava ser vítima de tamanha brutalidade ao deixar sua casa no bairro da Penha, no Rio, e seguir para a casa de um amigo, que preferiu resguardar sua identidade, na Estrada do Rio Seco. Após ser rendido pelo bando e ter R$ 300 em espécie roubados, o aposentado foi levado para a casa de um vizinho, o comerciante Luiz da Silva Machado, 53 anos, onde foi morto com um tiro no peito. Meia hora antes, os bandidos já tinham invadido duas residências há poucos metros do local.
“Há anos que o seu Pedro passava dias aqui e tinha feito amizade com todos da região. Não sei por que os bandidos o trouxeram aqui para casa, mas vi quando chegaram e me chamaram, e em seguida arrombaram as portas. Na hora, consegui fugir e me esconder num cômodo próximo a minha casa. Eles estavam desnorteados e entraram atirando. Acredito que se não tivesse fugido, essa hora estaria morto”, lembrou o comerciante, que teve R$ 300 em espécie levados. Ao voltar para casa, por volta das 6h30min., o comerciante encontrou Pedro morto, no corredor da casa. Naquela noite, sua esposa tinha ido dormir na casa de uma irmã e escapou da ação violenta do bando.
Minutos depois, os bandidos renderam as famílias de três residências no Sítio Nossa Senhora da Conceição, na Estrada da Mata, onde roubaram mais de R$ 2 mil em espécie, jóias, sete celulares, quatro relógios de pulso, um aparelho de DVD e uma pistola Taurus de calibre 380, de propriedade de Luis Ramos de Freitas, 34 anos.
Por volta das 3h, os assaltantes seguiram para a Estrada de Tomascar, onde invadiram a casa da comerciante Sônia Regina Alves de Souza, 49 anos, baleada no abdômen. Segundo depoimento na 119ª DP (Rio Bonito) do seu marido, Ademir Souza, ele abriu a porta de casa após ouvir um dos homens o chamando no portão, mas quando percebeu o assalto se trancou novamente, o que fez o bando disparar diversos tiros na sua residência. Porém, o latido dos cachorros da família e o barulho dos tiros impediram uma tragédia maior, pois despertou a vizinhança que acordou assustada e acendeu as luzes de suas residências. Populares disseram que a van seguiu numa estrada sentido Sampaio Corrêa, em Saquarema. Sônia foi levada para o Hospital Darcy Vargas, no Centro de Rio Bonito, onde se encontra internada e fora de perigo.
O caso foi registrado na 119ª DP, onde sete vítimas foram ouvidas até a última terça-feira (15). Na manhã seguinte ao crime, a van foi encontrada com marca de tiro em sua traseira, em Araruama.
“Já ouvimos algumas testemunhas, mas outras também devem ser ouvidas até a próxima semana. As informações delas são imprescindíveis para desvendarmos o caso e capturarmos os criminosos”, explicou um policial civil.
Vítimas abandonam suas casas
Temendo a promessa de vingança dos criminosos, a família da comerciante Sônia Regina Alves de Souza, 49 anos, baleada com um tiro na barriga, no último dia 10, abandonou sua casa na Estrada de Tomascar, em Rio Bonito, um dia depois do assalto e se mudou para um bairro distante, em Tanguá. De acordo com vizinhos, as filhas gêmeas do casal, de 15 anos, ficaram em estado de choque e estariam traumatizadas com a brutalidade do ataque.
“As meninas estão muito abaladas, traumatizadas com a violência que presenciaram. Foi uma coisa terrível, os bandidos dispararam muitos tiros para dentro da casa, tanto que um deles acertou a mãe delas”, frisou um comerciante local, sem se identificar, comentando a ironia do destino, já que a família se mudou há cinco anos atrás para o local em busca de tranqüilidade.
A idéia de deixar o local onde sempre viveu é o atual desejo da esposa do comerciante Luiz da Silva Machado, 53 anos, que disse não conseguir dormir sossegada após o crime. Embora estivesse ausente naquela noite, ela pensa em se mudar da zona rural, alegando falta de segurança.
“Não podemos viver tranqüilos num lugar onde não há segurança nenhuma. Se a polícia fizesse rondas por aqui, talvez evitasse esse tipo de violência. Depois desse dia, não consigo dormir em paz, minhas noites são de tormento e tenho a impressão que minha casa será invadida a qualquer momento”, revelou com lágrimas nos olhos.
Para tranqüilizar a população da zona rural de Rio Bonito, o comandante do 35º BPM (Itaboraí), o tenente-coronel Júlio César Ramos, intensificou o policiamento no local, porém, revelou que não há como disponibilizar um patrulhamento rotineiro para a área. Segundo ele, o Serviço de Inteligência (P-2) da Polícia Militar ajuda nas investigações junto com a Polícia Civil, através de informações fornecidas pelas vítimas no dia do fato, com a finalidade de chegar aos autores do crime o mais rápido possível.
“Remanejamos um contingente maior de policiais para a região, com o objetivo de oferecer segurança à população. Porém, não temos como disponibilizar um patrulhamento rotineiro no local com o nosso atual efetivo. Entretanto, após a tentativa de homicídio contra o prefeito estamos dando uma atenção maior a Rio Bonito”, esclareceu o comandante, citando a intensificação do efetivo na cidade após o prefeito, José Luiz Alves Antunes, ser baleado quando almoçava na Pensão das Irmãs, na Praça Cruzeiro, no último dia primeiro. Hoje, cerca de 20 a 25 policiais militares fazem a segurança da cidade em duas viaturas.
Zona rural vira alvo de criminosos
Não é a primeira vez que a zona rural de Rio Bonito é surpreendida pela ação de criminosos. Em poucos anos, o local já foi palco de homicídios e assaltos à mão armada. Os moradores acreditam que a pouca movimentação de pessoas, falta de iluminação e segurança facilite a criminalidade, principalmente, em ataques a pequenos comércios e sítios da região.
Caso do comerciante Alípio Cardoso, 67 anos, que teve a sua mercearia assaltada cinco vezes de 1998 até 2004. Segundo ele, o local deixou de ser pacato e virou alvo de bandidos. Como as estradas de chão têm acesso a RJ-124 (Via Lagos), em Rio Bonito, e aos municípios de Tanguá e Saquarema, a região facilitaria a fuga de criminosos.
“Eu já fui assaltado várias vezes, inclusive a luz do dia. Geralmente, eles vêm em busca de dinheiro e escolhem comércios e sítios da região”, acredita.
No último dia 29 de abril, Márcio José Domingues da Silva foi morto com duas facadas pelo biscateiro José Ricardo Cardoso Portela, de 22 anos, após ter cobrado uma dívida de R$ 50 da mãe do autor do crime momentos antes. A vítima foi esfaqueada no campo de futebol de Tomascar, sem chance de defesa. O assassino foi preso por policiais da 119ª DP (Rio Bonito) no dia 26 de maio, no loteamento Apolo III, no bairro de Marambaia, em São Gonçalo, após permanecer quase um mês escondido na casa de parentes.
Falta de comunicação prejudica ação da polícia
Sem acesso a telefones fixos, os moradores de Rio Seco, Mata e Tomascar ficaram ilhados durante a ação dos seis homens armados que promoveram um arrastão em sete residências. A falta de comunicação, já que apenas duas operadoras de celular funcionam de forma precária na localidade, permitiu que os bandidos agissem impunemente por três horas. Cerca de quase uma hora após o início dos ataques, a Polícia Militar foi avisada. Uma viatura de Rio Bonito e duas de Tanguá, pertencentes ao 35º BPM (Itaboraí), se deslocaram para o local, mas não conseguiram localizar o bando.
“Não temos acesso a telefone fixo e o celular pega muito mal. Claro que a falta de comunicação contribuiu para a ação dos criminosos, já que os moradores não conseguiram avisar a polícia na hora”, informou um morador, sem se identificar. Nascido e criado em Tomascar, ele mora a cerca de 100 metros da residência da comerciante Sônia Regina Alves de Souza, 49 anos, baleada com um tiro no abdômen naquela noite.
De acordo com moradores, o bando chegou a se esconder dentro da van num matagal próximo, quando a polícia chegou ao local. Como não há iluminação, alguns disseram que duas viaturas passaram pelo matagal, mas não conseguiram avistar o veículo.
“Os moradores nos informaram que a as viaturas passaram pelo matagal, mas não avistaram a van, já que se trata de um lugar ermo e sem iluminação. Parecia que algum dos integrantes conhecia a localidade, pois há três estradas de chão e com a falta de iluminação qualquer um se perderia, caso não conhecesse o lugar”, suspeita o tenente da 3ª CIA de Rio Bonito (35º BPM), Bruno Ribeiro de Araújo.
Na manhã seguinte, policiais do 35º BPM (Itaboraí), 25º BPM (Cabo Frio) e 119º DP (Rio Bonito) realizaram uma incursão na região, após serem informados que os bandidos estariam escondidos num sítio nas proximidades. Toda a área foi vasculhada pela polícia, mas o bando conseguiu escapar.
Vereadores indignados com o crime
O crime ocorrido na zona rural de Rio Bonito, foi motivo de um intenso debate na reunião da Câmara Municipal, na última terça-feira (15). Indignados com a onda de violência que chegou a “pacata” zona rural da cidade, os vereadores Rita de Cássia, Marcos Vinícius Botelho, Humberto Belgues, Aissar Elias de Moraes e Carlos Cordeiro Neto, o Caneco, lamentaram o caso e pediram providências imediatas à polícia.
“Não podemos ficar de braços cruzados e assistir a essa onda de violência que agora atingiu a zona rural. A polícia tem que desvendar o caso e prender os criminosos, o quanto antes”, exigiu o vereador Humberto.
Já a vereadora Rita de Cássia, pediu solidariedade às vítimas e disse que ninguém está livre da violência nos dias atuais. De acordo com ela, em épocas de eleições a violência parece aumentar nas cidades, mesmos as com os menores índices de criminalidade, como Rio Bonito.
“O momento é de prestarmos solidariedade às vítimas, mas não podemos esquecer que, hoje, ninguém está livre da violência. É estranho, mas na época de eleições os índices de violência aumentam nas cidades. Por isso, é imprescindível que o governo invista em educação, a única forma de coibirmos a criminalidade e formamos crianças, jovens e adultos de bem”, avaliou a vereadora.
Estarrecido com a ação dos criminosos, o vereador Marcos Vinícius Botelho culpou a Polícia Militar por disponibilizar um pequeno efetivo para cuidar da segurança da cidade.
“Há poucos policiais militares na cidade, nossa população está desprotegida. A polícia deveria dar mais atenção a Rio Bonito e também a zona rural, já que os moradores estão distantes e mais vulneráveis a ação de criminosos”, afirmou.