As lições de Francisco Pereira Passos

Na última semana, nós fizemos um artigo parabenizando o prefeito José Luiz Antunes por ter aterrado o pátio de manobra da ferrovia que corta o município. Com a ação, o prefeito criou muitas vagas de estacionamento, um dos clamores dos motoristas riobonitenses, que não tinham onde estacionar (esqueçam a lama!). Apesar da poeira, a maior parte das pessoas – inclusive eu – é favorável a iniciativa do chefe do Executivo, que tem como principal desafio, modernizar uma cidade que não quer abrir mão de práticas e hábitos que podemos classificar como ultrapassados e anacrônicos.

A implantação do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí, os cerca de US$ 20 bilhões previstos para serem investidos no empreendimento e a geração de aproximadamente 200 mil empregos, certamente causarão impactos significativos em Rio Bonito e toda região. Mas para absorver as mudanças positivas e negativas do Comperj, as nossas cidades precisam, além de estacionamento, Segurança, Saúde, Educação, Esporte, Lazer, Transporte, Cultura e, principalmente, Infraestrutura e Urbanização.

Por isso, acho interessante analisar a postura do engenheiro Francisco Pereira Passos, que governou o município do Rio de Janeiro entre os anos de 1903 e 1906. Na época, a então capital do país era conhecida como uma cidade suja, desorganizada e cheia de doenças. Era o “Quinto dos Infernos”. Ao lado de figuras como Francisco Bicalho, Paulo de Frontin e Lauro Müller, Francisco Pereira Passos, que nasceu na cidade Fluminense de Piraí, em 29 de agosto de 1836, capitaneou a “Reforma Passos”.

Vale ressaltar que no início do século XX, o Rio de Janeiro passava por graves problemas sociais, por causa do rápido e desordenado crescimento, alavancado pela imigração européia e pela transição da mão de obra escrava para o trabalho livre. Além da estrutura colonial, a cidade possuía cerca de um milhão de habitantes, que enfrentavam carência de transporte, segurança, abastecimento de água, rede de esgotos e programas de saúde.

Aumentavam as habitações coletivas (cortiços), onde ocorriam constantes epidemias de febre amarela, varíola, cólera, entre outras doenças. A cidade ganhou dos visitantes estrageiros, o apelido de “porto sujo” ou “cidade da morte”. A “Reforma Passos”, também conhecida como “bota-abaixo”, tinha o objetivo de sanear, urbanizar, embelezar e modernizar a cidade.

Historiadores dividem a “Reforma Passos” em duas fases: a primeira, projetada pelo governo federal, ocorreu em função da necessidade de modernizar o porto, para se livrar da alcunha “porto sujo”. A segunda, planejada pela Prefeitura, tinha a intenção de organizar a cidade, integrando os diversos trechos do município ao Centro. Outra obra primordial era a construção da Avenida Central (atual Rio Branco), que pretendia solucionar um problema histórico: a distribuição dos produtos que chegavam no porto para a rede de comércio estabelecida no Centro da cidade.

Os morros da Conceição, do Livramento, da Providência e da Saúde deixavam o porto isolado do centro comercial. As únicas possibilidades para o escoamento das mercadorias do porto estavam na Rua da Prainha, Caminho do Valongo, posteriormente chamado de Rua Camerino, que era um emaranhado de ruas estreitas que comprometiam o trânsito. A melhor alternativa foi demolir pequenos quarteirões e construir a Avenida Central. Para demolir os cortiços houve a mesma chiadeira que existe em relação ao fechamento da Av. Castelo Branco (rua dos bancos), em Rio Bonito. Mas tudo foi demolido ou “botado abaixo”. Que sirva de exemplo!

O presidente Rodrigues Alves, lá no início do século XX, entendeu que essas obras (porto e abertura de ruas) eram relevantes para atrair visitantes, investidores e turistas. Por motivos similares, o prefeito de Rio Bonito e cidades vizinhas deveriam observar que as suas cidades não têm uma rodoviária apresentável. Também deveriam pensar na construção de um heliponto, para acabar esse negócio de helicópteros, que chegam com autoridades e personalidades, descendo nos campos de futebol. Essa prática deixa a nossa cidade com um ar “capiau”. Eu duvido que isso aconteça no Maracanã, em São Januário ou no Engenhão!

O prefeito José Luiz criou a Via Verde, estrada que liga o Green Valley ao Basílio. Penso, porém, que o município também deveria crescer em direção ao Segundo Distrito (Boa Esperança) e para os lados da Colina da Primavera. Aliás, o Centro da cidade está inchado. Um investimento interessante, por exemplo, para o Centro, seria a construção de uma estação de tratamento de esgoto e a consequente criação de rede de captação de águas pluviais (água de chuva e esgotos) e fluviais (água dos rios). Em resumo, a coragem e a visão de Pereira Passos poderiam nortear uma série de melhorias em Rio Bonito e região.