Lívia Louzada

Professora por formação e artista plástica por vocação. A riobonitense Rozane Maria de Mello Cardoso, recebeu a reportagem da FOLHA DA TERRA, em sua casa, no Centro de Rio Bonito, na manhã do último dia 5, para falar de sua trajetória como pintora. Ela contou como surgiu sua paixão pelo desenho, e pela pintura, e sobre algumas exposições que participou.

Formada em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF), nascida em Boa Esperança, e filha de Dinéa de Mello Cardoso e Renato Cardoso (já falecido), Rozane morou em Braçanã, localidade rural de Rio Bonito, onde seu pai possuía uma fazenda, até os 10 anos, local em que começou a fazer seus primeiros traços. Segundo ela, aos sete anos reproduzia, em folhas de caderno, imagens que lhe chamavam atenção, como decorações de ambientes, ou ilustrações dos livros de história que lia.

“Eu me lembro que nessa idade eu ia visitar as pessoas, e ficava observando a decoração da casa. Quando voltava para minha casa, eu tentava reproduzir tudo que tinha me chamado atenção, inclusive com perspectiva (técnica de pintura ou desenho tridimensional, que possibilita a ilusão de espessura e profundidade das figuras) do ambiente. E depois que acabava os desenhos, colava tudo na parede e chamava meus pais e irmãos para verem, dizendo que era a minha exposição”, diz.

Apesar da lembrança da artista, sua mãe garante que ela já desenhava e expunha seus desenhos em casa, aos quatro anos. “Me lembro bem quando ela me mostrou um desenho que acabara de fazer. Era um emaranhado de riscos em sentido vertical, e dois pés em baixo desses riscos. Eu não entendi o desenho, então perguntei do que se tratava, e ela disse que era uma noiva, coberta com um véu, de costas. Achei aquilo o máximo, como ela poderia imaginar tal coisa, se era tão pequena”, lembra Dinéa.

Anos depois, quando já estava no 2º grau, fazendo o curso de formação de professores no Colégio Manuel Duarte (atual Colégio Cenecista Monsenhor Antônio de Souza Gens), a artista plástica contou que começou a desenhar em crayon (técnica de desenho a lápis), e nas aulas práticas do curso, aumentava as ilustrações para suas amigas. Neste período, ela disse que teve o incentivo de um de seus professores, que lhe imprestou um livro de técnicas de desenhos básicos, onde pode aprender mais sobre proporções e formas de desenhos.

Depois que terminou o curso normal, ela entrou para a universidade, e durante os anos de formação, deixou o desenho de lado. Mas como reproduzir as formas no papel era uma paixão, logo que terminou o curso de Letras, e começou a trabalhar como professora de Literatura, Português e Espanhol, Rozane conseguiu unir as duas habilidades.

“Quando eu dava aula de Literatura e precisava explicar para os alunos onde surgiram as fases literárias, eu desenhava à giz no quadro, os mapas dos países. Já cheguei a desenhar o mapa do Brasil, com todas as divisões dos estados, e até o mapa-múndi, tudo de cabeça, sem olhar em lugar nenhum”, conta Rozane.

Mesmo sem nenhuma formação artística, a professora seguia desenhando e lecionando em algumas escolas de Rio Bonito, como nos colégios estaduais José Matoso Maia Forte (Praça Cruzeiro), Desembargador José Augusto Coelho da Rocha Júnior (Bela Vista), Antônio Lopes de Campos Filho (Basílio), e no Colégio Cenecista, no Centro da cidade.

Até que no final dos anos 80, fez um curso de decoração em Niterói, onde aperfeiçoou sua técnica e começou a desenhar móveis. A partir desta formação, outras oportunidades se abriram para que a artista desenvolvesse seu dom. Ela foi indicada para fazer um curso de desenho e pintura, técnica que até então não dominava, no atelier da artista plástica de renome, Ana Canella, também em Niterói.

Foram 12 anos de aprendizado e técnicas novas, já que Rozane nunca havia feito pintura a óleo. Durante o curso com a artista, ela ainda participou de um outro curso de desenho com o artista plástico Selmo Rodrigues. Rozane conta que sentia prazer em descobrir técnicas novas. “Comecei a perceber que eu era capaz de fazer as obras, quando me via ajudando alunos mais velhos ou mais novos que eu. Aquilo me dava muita satisfação”, relembra.

A partir daí, ela investiu nas pinturas e não parou mais. Começou a receber encomendas de quadros e foi convidada para participar de exposições, com suas obras, no Instituto Abel, no Clube Naval Charitas, ambos em Niterói, entre outros locais. Na região, em 1999, foi convidada pela Secretaria de Cultura de Itaboraí, para realizar uma exposição na Casa de Cultura de Itaboraí. Em Rio Bonito, participou de eventos da Secretaria de Cultura, e exposições organizadas pela 35ª subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e ainda doou quadros para as duas edições do leilão realizado pelo Centro de Educação Especial José Reis.

Lembranças da infância marcam o trabalho da artista

 

Com a sua aposentadoria, anos mais tarde, após 25 anos de magistério, logo entraria em cena a professora de pintura Rozane Cardoso. Como já era uma vontade antiga, a artista abriu seu atelier, localizado na Rua Cortines Lache, nº 83, no bairro Caixa D’Água. E hoje dedica seu tempo a dar aulas de pintura a aproximadamente dez alunas. “Não encaro apenas como um trabalho, pois lá a gente se diverte, é um ambiente descontraído”, revela Rozane.

Depois de anos de desenhos e pinturas, ela afirma que ainda gosta de reproduzir fotos, mas que também cria as imagens na mente, e as transfere para a tela. Ela revela suas preferências artísticas e suas heranças, além de confessar ser uma admiradora do estilo de pintura dos séculos 16 e 17, Renascentista e Barroco, respectivamente.

“Foi com Canella (Ana Canella) que conheci a pintura, e hoje é o que eu mais gosto de fazer. Gosto mais de pintar paisagens por conta das cores da natureza. Os tons da mata me fascinam, eu me identifico. Acho que acontece isso por causa do lugar onde passei minha infância (referência a Braçanã)”, concluiu.