Lívia Louzada
Simon Carlos Carvalho Macedo. Esse é o nome do primeiro ex-interno do Hospital Colônia de Rio Bonito a ser desinstitucionalizado e devolvido para a família, em outro Estado, desde a intervenção do Estado, iniciada em julho de 2010. O processo de ressocialização durou cerca de cinco meses, e foi desenvolvido pela equipe do Programa de Saúde Mental do município de Silva Jardim. Com 52 anos, há 10 internado na instituição, e há cerca de 26 anos longe da família, Simon retornou a sua cidade natal, Fortaleza, no dia 17 de março. A equipe da FOLHA DA TERRA conversou com os responsáveis pela reabilitação, o coordenador do Programa de Saúde Mental de Silva Jardim, Adelson Bruno Santos, e o psicólogo do Programa, Caio Tomé, que explicaram como aconteceu o processo.
De acordo com eles, o primeiro contato, não só com Simon, mas com os outros cinco pacientes, que hoje estão sob a responsabilidade do Programa de Saúde Mental de Silva Jardim, mas continuam internados no Hospital Colônia, sendo preparados para a reinserção social, começou em julho de 2010. Foram feitas avaliações clínicas, e todo o histórico dos pacientes foi analisado.
Em outubro de 2010, o Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF) de Silva Jardim, foi acionado para tentar contato com os familiares dos pacientes. E ao conseguir a comunicação com a família de Simon, em Fortaleza, veio a surpresa, os familiares não sabiam que Simon estava internado há 10 anos, e já achavam que ele estivesse morto.
“Na mesma semana que eu pedi ao NASF que fizesse o contato com as famílias, a assistente social conseguiu localizar a família do Simon. A rapidez nos causou espanto, pelo fato do próprio Hospital não ter conseguido fazer essa busca antes. Além disso, o Simon trazia essas informações. Ele dizia que trabalhava em uma empresa que prestava serviço a Marinha, dizia o nome dos familiares, quer dizer, o hospital tinha condição de achar a família dele”, concluiu o coordenador Adelson Bruno.
Segundo Adelson Bruno, a causa da internação e o surto de Simon, ainda são envoltas de perguntas sem respostas, mas o que se sabe, é que ele fazia serviços para a Marinha, mas era funcionário de uma empresa terceirizada. E depois de uma das viagens em um navio, com destino ao Rio de Janeiro, teve um surto, e foi parar em Silva Jardim. Em 2001, ele foi internado no Hospital Colônia de Rio Bonito.
A família
A reportagem da FOLHA também entrou em contato, por telefone, com o irmão de Simon, Carlos Aurélio Macedo, que mora em Fortaleza. Após receber a notícia, Carlos disse que se sentiu feliz, e ao mesmo tempo assustado de saber que seu irmão estava vivo, mas internado em um hospital psiquiátrico. Carlos então veio até Rio Bonito, em dezembro, para ver a situação de Simon, e teve a mesma opinião do coordenador Adelson.
“Quando soube, fiquei feliz e assustado por saber que ele estava em um hospital. Estávamos procurando ele há 26 anos. Procuramos muito o Simon, mas pensávamos que ele já estivesse até morto. Estive lá (no Hospital) para ver como o Simon estava, e o encontrei babando, com a língua para fora. Estava transtornado, embotado, sem muita reação por causa dos remédios que tomava. Mas acho que eles (o Hospital) poderiam ter entrado em contato com a gente antes. O Simon dava dicas sobre a família, o lugar de onde era”, avaliou Carlos.
Mudanças
Depois de mudar a medicação, e entrar em contato com a família, a dupla de psicólogos que acompanhou o paciente, conheceu um novo Simon. Sua evolução já era possível ser notada em pequenos detalhes, como por exemplo, na manhã em que a viagem estava marcada, dia 17 de março. Em 10 anos, foi a primeira noite que o ex-interno dormiu fora do hospital. “Levamos o Simon para dormir na Policlínica (de Silva Jardim), com o Caio, até por uma questão de observação. De manhã, ele se vestiu, calçou e amarrou o tênis sozinho. A diferença do Simon, do primeiro contato que tivemos, para o Simon que levamos, é imensa”, disse o coordenador.
Ele ainda completou dizendo que durante todo o período da viagem de avião, o ex-interno se comportou normalmente, como se nunca tivesse sido internado. “O trabalho foi muito bem feito, tanto pelo Caio, nosso psicólogo, quanto pela equipe interventora, porque o Simon saiu de dentro do Hospital Colônia muito bem preparado. Não deu o mínimo de trabalho. Ele fez uma viagem de 3h30, como se fizesse uma ponte aérea todo o dia, e sem precisar alterar a medicação. Foi uma melhora de 90%, com os outros 10% à caminho. Admiro muito o Simon, porque não é qualquer um que passa pelo que ele passou, e consegue ter a força de se transformar como ele se transformou”, disse Adelson.
De acordo com os psicólogos, a surpresa foi ainda maior, quando chegaram no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro Antônio Carlos Jobim, e Simon comeu de garfo e faca, por livre e espontânea vontade. “A mudança foi muito grande. Quando chegamos no Hospital Colônia, ele comia com a mão, no meio de um refeitório sujo, sem a menor dignidade, e tomava a medicação errada. Ele não falava, tremia o tempo todo, e babava. Depois de conversarmos com a psiquiatra, ela mudou a medicação, e aí ele começou a conversar. E de repente, como se nada tivesse acontecido, chegamos no aeroporto, e vimos ele comendo um mamão de garfo e faca. Não acreditei no que estava vendo. Não pedimos para que ele usasse os talheres, foi uma reação dele”, disse Caio.
Em casa
De acordo a assistente social do Programa de Saúde Mental de Fortaleza, Vanusia Monteiro, apesar de voltar para sua cidade natal, tanto Simon, quanto a família, sabiam que ele ficaria internado em uma Casa de Passagem de lá, mas não foi preciso. “Quando entraram em contato com a gente, reservamos uma vaga na Casa de Passagem para ele, mas quando ele chegou, fizemos alguns testes, e vimos que ele não tinha características de um doente de internação, e então pôde ficar em casa com a família. Esclareci para a família, que apesar de ficar em casa, ele precisava de um acompanhamento”.
Segundo Carlos, Simon cumpre as orientações, toma remédios todos os dias, e frequenta o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Fortaleza. “Quando o Simon chegou aqui em Fortaleza, ele estava bem melhor do que quando o vi em dezembro, hoje ele está sendo muito bem cuidado, está calmo e morando com uma irmã nossa (Jaqueline)”, avaliou.
Carlos também contou que já fez contatos com a Marinha para saber o que realmente aconteceu, mas até o momento obteve apenas respostas evasivas.