Lívia Louzada
Quem tem mais de 35 anos se lembra bem dos cinemas que marcaram época e várias gerações de riobonitenses, o Cine Glória e o Cine Vitória. Mas o que poucos sabem ou lembram, é que a cidade já possuiu outros dois cinemas, o Cine Esperança, em Boa Esperança, e outro denominado como o primeiro Cine Glória, localizado na Rua Dr. Francisco de Souza (próximo ao supermercado Multimix), no Centro. Além dos moradores de Rio Bonito, e de cidades vizinhas, os cinemas também atraiam autoridades, como o ex-presidente da República Jânio Quadros.
Cine Glória
Fundado em 1952 pelos irmãos Antônio, Moisés, Fued e Michel Mansur, o Cine Glória funcionava na Avenida Presidente Castelo Branco, no Centro da cidade, na área onde funciona hoje a Receita Federal e o shopping Comercial Center. O terreno onde é localizado o shopping já era da família Mansur, mas o terreno ao lado era da Prefeitura, que cedeu o trecho aos irmãos para que fosse construído o empreendimento. Mesmo com a capacidade para mil pessoas, no dia de estreia, em que foi exibido o filme Dom Juan, o cinema lotou e muitas pessoas ficaram do lado de fora.
O cinema fez parte da infância e juventude de muita gente, como o jornalista, poeta e advogado Leir Moraes, de 76 anos. De acordo com ele, todos os domingos, na sessão das 18h, era quase que religioso os riobonitenses irem ao cinema. O poeta também lembra das paqueras de criança, quando marcavam encontro no cinema. “Eu tinha mais ou menos uns 17 anos naquela época, e me lembro que a gente marcava com a namorada, no cinema, e quem chegasse primeiro, marcava o lugar do outro”.
Segundo Leir, os filmes que mais gostava de assistir eram os de faroeste, mas também havia espaço para comédias como “Casinha Pequenina”, estrelado por Mazzaropi. Outra lembrança do jornalista eram as visitas de políticos no cinema, como Joaquim Lavoura, ex-prefeito de São Gonçalo, e Jânio Quadros, ex-presidente da República. Ele esteve no Cine Glória durante o período da campanha eleitoral, na qual se elegeu em 1961.
Outra lembrança de Leir é de um dos gerentes do cinema, o saudoso professor Maurício Badr, que de acordo com o advogado, abria as sessões com músicas inesquecíveis. Mas apesar do sucesso, no final da década de 60, o cinema começou a entrar em declínio, segundo o advogado Gibran Mansur, neto de Moisés, um dos proprietários do Cine Glória. Pouco tempo depois, em 1970, o prédio foi alugado e vendido. Mas em 1976, acredita-se que devido a um curto circuito, o cinema pegou fogo.
A história do Cine Glória é lembrada com detalhes por muitas pessoas, que lamentam, nos dias de hoje, a cidade não possuir um único cinema. De acordo com Gibran, um dos motivos pelo qual os cinemas não foram à frente, foi o vandalismo dos frequentadores. Segundo ele, ao final de cada sessão, cadeiras eram encontradas quebradas e os banheiros depredados, o que gerava um custo alto de manutenção. Mas mesmo com os prejuízos, os irmãos Mansur ainda continuaram, por algum tempo, levando a sétima arte aos riobonitenses.
“O Cine Glória faz parte de um legado muito importante que a família Mansur deixou para Rio Bonito”, disse Gibran.
Cine Vitória
Quatro anos depois da inauguração do Cine Glória, mais precisamente no dia 6 de janeiro de 1956, o Cine Vitória foi inaugurado, com capacidade para mil pessoas. A ideia de abrir o cinema foi de Manoel de Souza Lima, irmão mais velho do comerciante aposentado Lauro Marcelino, hoje com 88 anos. Segundo Lauro, Manoel foi o cabeça de tudo, já que o cinema foi criado por causa de uma desavença entre ele, Manoel, e o médico Fued Mansur, um dos donos do Cine Glória.
De acordo com Lauro, Manoel possuía uma oficina de caminhões ao lado da casa de Fued, mas ele não gostava nada da vizinhança de motores, e por esse motivo, ameaçava entrar na Justiça e fechar a oficina. Manoel então teria prometido que se o médico conseguisse fechar sua oficina, ele abriria um cinema, no mesmo lugar da oficina, para concorrer com o empreendimento de Fued. Cerca de três anos depois, o médico ganhou a causa na Justiça e a oficina foi fechada.
Depois de perder a oficina, Manoel não perdeu tempo, chamou o irmão Lauro, que já tinha sido gerente do primeiro Cine Glória e teria dito: “Lauro, vamos fazer um cinema aqui (no lugar que ficava a oficina), e ele (Fued) vai ter um concorrente”.
Uma reunião foi marcada para acertar a construção do cinema e conseguir alguns sócios, por isso além dos dois irmãos e alguns amigos, também foi chamado o comerciante José Cardozo, que era dono do terreno. No total, o Cine Vitória chegou a ter 19 sócios, já que muitos compraram títulos e se tornaram sócios minoritários.
Tudo combinado. Sociedade estabelecida, então era hora de começarem a obra. O cinema demorou de três a quatro anos para ser construído. Tempo demais para o cabeça de tudo, Manoel, ver sua promessa ganhar vida. Ele morreu antes do cinema ser inaugurado. Mas como a obra já ia de vento em poupa e os sócios continuaram dando força ao projeto, no dia 6 de janeiro o Cine Vitória foi aberto. Filmes de kung fu, faroeste e principalmente de Mazzaropi faziam a alegria dos espectadores.
Lauro lembra que um dos filmes de maior bilheteria foi Ben Hur, que ficou cerca de 10 dias em cartaz, sempre com casa cheia. Outra curiosidade que poucos sabem é que Lauro Marcelino e os sócios, durante um período de quatro anos, também ficaram a frente do Cine Glória, após a administração dos irmãos Mansur. Ele e seus sócios então ficaram administrando dois cinemas, mas como a crise já batia na porta, e as despesas aumentavam cada vez mais, eles devolveram o prédio, logo assim que o contrato venceu. O cinema então foi novamente alugado, até pegar fogo.
Declínio
Mas assim como outros negócios da época, com a chegada da tecnologia, Lauro viu o movimento cair. Ele conta que além da chegada da televisão, os cinemas também tiveram prejuízos com as empresas que forneciam os filmes. De acordo com ele, nos primeiros anos os filmes eram alugados, mas com o passar do tempo, começaram a ser fornecidos por comissão. Ao exibir algumas obras, o empresário ficava com apenas 30% do valor da bilheteria, que naquela época já não faturava tanto. Daí por diante, não teve jeito, e em 1983, Lauro alugou o cinema para uma empresa de Resende, do mesmo ramo, que em 1985 entregou o imóvel. Há 10 anos, o prédio do cinema está alugado para a Igreja Universal.
Cinemas também eram locais de paquera e brincadeiras
Não precisa procurar muito para achar algum riobonitense que tenha lembranças da sua juventude ou infância no Cine Vitória. Na época dos tempos áureos o cinema tinha uma sessão de segunda-feira a sábado, e três sessões no domingo. E eram exatamente nessas sessões que o contador Leânderson Martinez, de 38 anos, se lembra de ter frequentado.
“Me lembro que na época o cinema era bem frequentado. Eu assistia principalmente os filmes de Mazzaropi, faroeste, Nacional Kid, Zorro, e desenhos, que tinham na matinê, que começava as 16h para as crianças. Nessa época eu tinha uns 12 anos, mas me lembro que nossos pais nos levavam para o cinema, e depois iam buscar”, conta Leanderson.
Além da diversão com os colegas, o contador também se lembra da paquera que acontecia durante um filme e outro. “Me lembro também daquela paquera de criança no cinema, e da bagunça que a gente aprontava, jogando pipoca nas outras crianças e grudando chiclete no cabelo dos outros. O lanterninha sempre brigava com a gente, mas a gente sempre aprontava”, lembra o contador.
O próprio dono do cinema, Lauro, lembra de muitas histórias que passou durante o período que ficou a frente do Cine Vitória. Segundo ele, certa vez, quando acabara de chegar em casa, vindo do cinema, um homem foi lhe avisar de que estava havendo uma confusão no cinema, e que as pessoas estavam saindo correndo do lugar.
“Corri até lá para ver o que estava acontecendo, e já encontrei o cinema vazio e uma pilha de calçados deixados para trás. Depois fiquei sabendo que uma mulher descobriu que o marido estava com a amante no cinema, e foi até lá para tirar satisfação. Quando chegou e pegou o marido com a outra, começaram a discutir, até que uma pessoa viu a cena e disse que briga de casal, ‘é fogo’, e aí as pessoas só ouviram o ´é fogo´, e todo mundo saiu correndo do cinema achando que estava pegando fogo”, lembra ele dando risadas.
O primeiro Cine Glória
Quem tem mais de 70 anos lembra do primeiro cinema de Rio Bonito, localizado na Rua Dr. Francisco de Souza. Alguns dizem ter se chamado também Cine Glória, assim como o dos irmãos Mansur, mas o que ninguém discute é que ele funcionou da década de 40 ao início da década de 50, e que fechou antes do conhecido Cine Glória abrir. Era um cinema mudo, e assim como o nome, há controvérsias quanto ao dono do empreendimento. Algumas pessoas dizem ter sido de Sizenando Damasco, já o dono do Cine Vitória, Lauro Marcelino, que foi gerente deste cinema, diz ter sido de uma empresa chamada F. Cupello, que também era proprietária de outros cinemas pelo Brasil.
Segundo Lauro, depois do primeiro Cine Glória ter fechado, a Prefeitura ofereceu um terreno a empresa F. Cupello, na Av. Pres. Castelo Branco, para a construção de outro, mas a empresa não se interessou. O terreno então foi oferecido a família Mansur, que construiu o conhecido Cine Glória.
Também frequentador assíduo do primeiro Cine Glória, Leir Moraes conta que quando tinha cerca de 15 anos não perdia uma sessão do seriado Nioka - Rainha das Selvas. As exibições aconteciam todas as quartas-feiras, dias em que Leir e seus colegas aproveitavam para aprontar. “No cinema tinha uma galeria, que era feita de tábua, então a gente fazia xixi ali, que escorria pela tábua e pingava nas pessoas que estavam em baixo”, se diverte o poeta.
De acordo com ele, o cinema não tinha censura e quando os meninos não tinham dinheiro para assistir as sessões, o porteiro ‘cobrava’ a entrada com um cascudo na cabeça. Até que um dia, um dos garotos resolveu colocar uma lata de queijo em baixo do chapéu, e quando o porteiro deu o cascudo bateu mesmo foi na lata.
Cine Esperança funcionava com luz de motores
Para a surpresa de muitos, a cidade possuiu um quarto cinema, o Cine Esperança, localizado em Boa Esperança, na subida da Praça B. Lopes. A sala, que funcionou durante cerca de cinco anos na década de 50, era de um descendente de italianos chamado Dante Latino, e administrada pelo casal Argeo Tuffanelli e Nilza Couto. Segundo um dos filhos do casal, o farmacêutico Gian Tuffanelli, quando criança, sua mãe lhe contava que o cinema não havia se mantido por mais tempo porque políticos, delegados e autoridades em geral, queriam entrar de graça.
Além disso, quando tinha algum rodeio, todos os moradores da região preferiam prestigiar a festa e não o cinema. O casal também era responsável por passar filmes no cinema de Silva Jardim, chamado Cine São Jorge, que funcionava na Rua Luiz Gomes, no Centro, e pertencia a Raimundo da Silva.
Segundo a ex-moradora do 2º Distrito, Arleda Cardozo Pintas, de 69 anos, como Boa Esperança não possuía luz naquela época, o cinema funcionava somente a partir das 18h. Horário em que a Prefeitura ligava a luz gerada por motores, e as sessões acabavam antes das 23h, horário em que a luz era desligada. Arleda conta que o filme que mais gostava de assistir no Cine Esperança, eram os de Oscarito.