Rio - Dois dos seis mandados de prisão expedidos pela 2ª Vara Criminal de Rio Bonito contra acusados do assassinato do milionário da Mega-Sena foram cumpridos ontem. Os presos são PMs que já trabalharam como segurança para a vítima, Renné Senna: o sargento do 16º BPM (Olaria) Ronaldo Amaral Oliveira e o cabo do 9º BPM (Rocha Miranda) Marco Antônio Vicente. Entre os foragidos está o casal Anderson Silva de Souza, ex-PM que foi chefe da segurança de Renné, e sua mulher, Janaína Silva de Oliveira. Embora os dois formem um casal, informações passadas à polícia dão conta de que Anderson seria o segundo amante de Adriana Almeida, viúva do milionário. Ele é suspeito de ter dado os tiros que mataram Renné.

Janaína, por sua vez, é amiga há cerca de cinco anos de Adriana. “São amigas e eram garotas de programa”, disse o delegado titular da Delegacia de Homicídios, Roberto Cardoso. Outro foragido é Ednei Gonçalves Pereira — informante (X-9) da polícia. Por intermédio de Anderson, ele também foi da equipe de segurança de Renné. O primeiro mandado cumprido foi o da viúva, presa terça-feira em um hotel de luxo em Camboinhas, Niterói.

PRESOS NO BATALHÃO

Os dois PMs foram presos ao amanhecer de ontem, em seus batalhões. Levados para a Chefia de Polícia Civil, no Centro, ambos chegaram sem algemas. Ronaldo, no entanto, escondeu o rosto com casaco de um tenente da 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, que efetuou as prisões em apoio à equipe da DH. O grupo de ex-seguranças foi demitido por Renné Senna, o que teria desagradado Adriana.

A viúva é acusada de ser a mandante do homicídio, dia 7, em Rio Bonito. Renné foi baleado por dois homens numa moto. O milionário estava num bar, no quadriciclo que usava para se locomover, por ter as pernas amputadas devido a diabetes.

O advogado de Anderson telefonou ontem para a polícia e prometeu apresentá-lo hoje. Ele, que foi soldado do 17º BPM (Ilha do Governador) até ser expulso da corporação, em 2000, por porte ilegal de arma, já era investigado pela corregedoria pelo uso de carteiras falsas de policial. Anderson teria repassado uma das carteiras para Ednei, para que se fingisse de policial.

Em relatório do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança, consta que o cabo Ronaldo, conhecido como China, responde a acusação de homicídio de seis pessoas, em dezembro de 1999, no bairro Boa Esperança, em Nova Iguaçu.

O delegado Cardoso assumiu o caso há dois dias. Antes, as investigações estavam a cargo da 119 ª DP (Rio Bonito). Ele não descarta hipótese de fazer acareação entre Adriana e os seguranças, caso haja contradições nos depoimentos. Parentes, amigos e a viúva começam a depor semana que vem.

Boatos sobre morte de namorado

Além do interesse despertado pela prisão de Adriana, a cidade de Rio Bonito foi sacudida ontem pelo boato de que o motorista de van Robson de Andrade Oliveira, 25 anos, que confessou ser amante da viúva, teria sido assassinado no fim da manhã. Nas ruas do município, correram várias versões da informação: uns diziam que ele havia sofrido atentado dentro da van que dirige, próximo à rodoviária, enquanto outros garantiam que ele não havia morrido, mas estaria internado em estado grave no hospital de Rio Bonito.

A boataria movimentou o plantão da 119ª DP. “O telefone não pára de tocar, todos querem saber se isso é verdade. Já fiz uma ronda pelas delegacias da região (São Gonçalo, Itaboraí, Araruama, Saquarema) e não há nada parecido. Nos hospitais dessas cidades, nenhum baleado deu entrada nas últimas horas”, disse policial.

O interesse tem justificativa. O depoimento de Robson, no fim de semana, provocou reviravolta nas expectativas da população de Rio Bonito, que acompanha de perto as investigações do crime. Ao confessar o romance com Adriana — a quem identifica na agenda do celular como “égua loura” —, o motorista deixou claro que a viúva tinha mentido à polícia. A viúva havia dito ser fiel a Renné e ter passado o Réveillon sozinha na Região dos Lagos. Na verdade, os dois estavam juntos na virada do ano.

TRÊS ACUSADOS NA MIRA

Pelo menos três dos seis indiciados pela morte de Renné Senna terão a prisão pedida pelo assassinato do ex-segurança do milionário, o PM David Vilhena, executado em setembro, na Ilha do Governador. Segundo as investigações, os dois crimes têm ligação e o matador pode ser o mesmo.

O policial teria sido morto depois de descobrir plano de seqüestro de Renné e contar tudo ao patrão. “A relação dos dois ia além do profissional. Eles eram muito amigos”, disse o delegado Roberto Cardoso, titular da Delegacia de Homicídios.

Dias antes do crime, David já temia ser atacado. Para se desvencilhar de um Vectra branco, buscou abrigo num posto da Polícia Rodoviária Federal em Tanguá e pediu auxílio a agentes do Serviço Reservado do 35º BPM (Itaboraí). Na ocasião, ele entregou cópias das carteiras de identidade, habilitação e perito do Conselho Federal de Peritos do ex-PM Anderson Silva Souza, do sargento PM Ronaldo Amaral de Oliveira e de Edinei Gonçalves Pereira. Os três estariam por trás da ameaça.

Também chamou a atenção da polícia o fato de, cinco dias antes do assassinato do PM, o ex-soldado Anderson Silva Souza, que chefiava a segurança de Renné, ter sido demitido. Segundo as investigações, o milionário o dispensou depois de ter sido informado por David de que Souza havia sido expulso da PM em 2000.

No dia do crime, o policial David saiu de casa por volta das 4h, mais de duas horas antes do habitual. A parentes, ele afirmou ter sido convocado para chegar mais cedo a Rio Bonito, para substituir outro segurança, que precisava ir para o trabalho no Hospital da Polícia Militar, em Niterói. No entanto, não há registro de que algum policial tenha chegado atrasado na unidade hospitalar no dia da morte de Vilhena. A polícia suspeita que David tenha sido atraído para uma emboscada.

Fonte: O Dia