
A pouca repercussão do primeiro discurso do ex-presidente e agora Senador da República, Fernando Collor de Mello (PTB-AL), foi recebida com estranheza por quem acompanhou sua cassação em 1992. O motivo do estranhamento? Bem, primeiro porque o senador, além de levantar dúvidas sobre o seu impeachment, insinuou que o real motivo da sua saída foi o ressentimento de alguns. Ele classificou o impecheamant como “farsa, abuso e preconceito”.
Para refrescar a memória daqueles que há 15 anos atrás não dedicavam a devida atenção aos assuntos dessa natureza, convém lembrar, que Collor foi a grande surpresa das eleições de 1989. Jovem e com a imagem bem construída por uma competente equipe de publicidade – mais o apoio de todas as mídias de massa – mesmo em um partido pequeno (PRN), o então governador de Alagoas liderou a campanha presidencial desde o início e derrotou o então candidato Lula – popular, esquerdista, e de origem proletária – no 2º turno, com 35 milhões de votos. Collor assumiu a presidência em 1990, e como primeira medida, bloqueou por 18 meses o dinheiro (acima de CR$ 50 mil) da caderneta de poupança da população, prejudicando principalmente a classe média e média alta (os ricos tinham suas contas no exterior).
Após essa medida econômica, Collor deflagrou uma série de ações. Fechou empresas estatais, rompeu barreiras que impediam produtos importados no Brasil, modernizou o parque industrial do país e iniciou uma luta utópica de combate aos marajás (as regalias de deputados e senadores). Essas medidas, e seu estilo de governar sozinho, sem dar ‘atenção e espaço’ ao Congresso, foi o que principiou o seu processo de cassação. Porque como sabemos, a maioria dos integrantes do Legislativo possui um nível de carência exacerbado. Por isso, quando não recebem um chamego do Executivo, fazem beicinho e ficam de mal com o governo.
Entretanto, as novas medidas do então Presidente da República foram recebidas com significativa antipatia em todas as camadas sociais. Para os ricos era ruim, porque o dinheiro retido não circulava. No caso da classe média foi pior. Naquela época, pensando em viver dos juros que registravam taxas superiores a 80 % ao mês, muita gente vendeu tudo que tinha. Quando tudo foi confiscado, uma grande maioria perdeu tudo e muitos nunca mais se estabeleceram.
Os pobres, apesar de não possuírem dinheiro para ser confiscado, também começaram a enfrentar problemas. É simples a explicação. O sustento da classe menos favorecida provém do que sobra das classes mais abastadas, no entanto, como esses grupos tiveram seus recursos confiscados, nada sobrava para o sustento dos pobres. Já na classe política, a indignação era com a perda das eternas e nédias benesses (hoje cada deputado custa R$ 100 mil por mês ao país).
Até que certo dia, Pedro Collor, irmão do presidente, e o motorista da presidência Eriberto França, apresentaram documentos que ligavam o Chefe do Executivo a ilícitas negociações. Todas as ilegalidades eram capitaneadas por Paulo César Farias, o tesoureiro da sua campanha. A acusação era o recebimento de US$ 6,5 milhões durante a campanha presidencial. As investigações desvendaram ainda a Operação Uruguai, onde Collor teria feito um suposto empréstimo de US$ 5 milhões no país vizinho durante a campanha presidencial.
Sem querer ser o advogado do Diabo, convém lembrar que nenhuma das denúncias era mais imoral do que os escândalos recentes do mensalão, sanguessugas, bingos, Correios, Operação Furacão, etc. No entanto, a comparação das situações de Collor e Lula, mostra com nitidez o comportamento do Congresso com quem é parceiro ou não.
Enquanto o atual presidente foi blindado pelos próprios acusadores, como no episódio do mensalão (Roberto Jefferson, disse para José Dirceu: “sai daí Zé, você vai manchar a reputação de um inocente”, se referindo ao Lula), em 92, não houve interesse em blindar o presidente, porque ele não dava atenção ao Congresso, ou seja, ele não era parceiro (Collor admitiu esse comportamento no discurso e o então Presidente da Câmara Ibsen Pinheiro confirmou essa tendência).
Refletindo sobre essa recente história, dois atos do teatro político saltam aos nossos olhos. No primeiro ato, percebe-se que assim como a cultura, a política é viva, criando conflitos e resistências. É o jogo político! Querem negociar visibilidade na administração pública – igual minha filhinha de cinco meses, chora quando está com fome; mamou, está tudo certo, ela não vê mais nada – como aconteceu recentemente na coalizão feita pelo presidente Lula (esse dialoga como ninguém com o Legislativo). Já no segundo ato, as denúncias surgem de duas descobertas, que serão encaradas com acomodação ou assimilação pelo parlamentar.
Primeira descoberta: está rolando uma festinha com o erário público. Conduta: não pode estar acontecendo! Estão prejudicando o povo. Vou denunciar ao Ministério Público. Que seja feita justiça! Acomodação.
Segunda descoberta: está rolando uma festinha com o erário público. Conduta: não pode estar acontecendo! Não me convidaram! Como vou participar? Já sei, vou denunciar até me convidarem! Assimilação.
O que ocorreu com o ex-presidente foi mais ou menos por aí. Collor estava realizando uma festança, porém só haviam dois convidados, o PC Farias e elle, que cometeu um pecado capital: esquecer de convidar alguns para a festinha. Ou por acaso o amigo leitor nunca ficou chateado com aquele vizinho ou amigo, que deu uma festa e não te convidou? Têm alguns que chegam a telefonar para a polícia e reclamar do volume do som (se estivesse lá, não teria ouvido o som).
Só para ilustrar, há algumas semanas atrás, a revista Veja noticiava a presença de Delúbio Soares – aquele mesmo, ex-tesoureiro do PT – na festa de aniversário de José Dirceu. São grandes amigos!
Ah sim, eu ia me esquecendo, José Dirceu – que recentemente teve o mandato cassado – foi uma das principais figuras no processo da cassação de Collor. Perceberam que homem sério? Que parlamentar de espírito público? Que humanista!
É amigo, o tempo passa, mas nada muda!