... Cachaça não é água não!

Há quinze dias, o programa Observatório da Imprensa, transmitido pela TVE, realizou um debate sobre a decisão do governo federal, de retirar dos veículos de comunicação, todas as propagandas de bebidas alcoólicas. Entre os convidados do programa, estava o Ministro da Saúde José Gomes Temporão. O ministro explicou que o alcoolismo no país hoje é um caso de Saúde Pública e que quando a mesma medida foi tomada contra os cigarros, existiu a mesma choradeira.

Temporão afirmou que esse é um assunto polêmico, porque envolve paixão, mas que precisa ser abordado, embora ele tenha reconhecido que em níveis moderados, o álcool pode até fazer bem. “O problema é que as pessoas perdem o controle”, argumentou o ministro, enfatizando que o Ministério da Saúde está preparando uma série de ações pontuais de combate ao alcoolismo.

Também participava do Observatório, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira – responsável pelo abaixo assinado Propaganda sem Bebida – uma das ações que teriam motivado a medida do governo. Ele sugeriu que assim como tem sido feito em outros países, o Brasil aumente o preço das bebidas alcoólicas para diminuir o consumo. O ministro concordou com a sugestão e declarou que o governo também pode depositar parte do dinheiro arrecadado com a venda em um fundo público, que seria destinado à recuperação das inúmeras vítimas do álcool.

O debate me conduziu a algumas lembranças, e entre elas, uma bem recente que eu gostaria de dividir com os leitores. Não se pode contestar o sucesso que foi a festa dos 161 anos de emancipação político-administrativa de Rio Bonito, ocorrido no último mês de maio. No entanto, eu confesso ainda estar estarrecido, com a quantidade de atendimentos realizados pela equipe da Secretaria Municipal de Saúde, em uma tenda que esteve durante todas as noites da festa, montada no pátio do Ciep. Só na noite de sábado, eu contei 18 pessoas atendidas. As vítimas chegavam carregadas e inconscientes devido ao uso indiscriminado e abusivo das bebidas alcoólicas, sem falar os sintomas clássicos de mistura de álcool e droga. Lembro-me especialmente de uma menina. Ela chegou quase despida e carregada por um grupo de jovens preocupados.

Alguém pode estar nesse momento pensando, que eu vou dar uma paulada no modo infeliz que esse pessoal tem de se divertir: “enchendo a cara”. Mas não, eu passei a refletir sobre qual deve ser o nível de relacionamento desses meninos e meninas com os seus responsáveis. Percebi que 70% deles eram menores de idade. Outra coisa que observei com estranheza: não lembro de ter visto junto desses adolescentes, os seus pais ou responsáveis (exceto em duas ocasiões). Outra surpresa que tive naquela noite: foram atendidas muito mais meninas do que meninos. Eu não sei se os meninos são mais resistentes e acostumados aos porres ou se a almejada igualdade entre os sexos foi alcançada, por enquanto, nesse quesito.

Fico me perguntando que tipos de valores os nossos jovens estão recebendo. Porque após a desintoxicação, eles comentam o fato com muita graça, como se o ocorrido seja uma coisa corriqueira. Em meio a muitas gargalhadas, meninos e meninas enumeram os atendimentos médicos que já receberam por causa das bebedeiras. A impressão que se tem, é que quanto maior o número de porres e atendimentos nas emergências médicas, maior é o conceito que o ébrio tem no grupo de colegas.

Mas afinal, quem é o culpado por esse comportamento? Alguns respondem ser dos jovens, outros da televisão, os apocalípticos culpam o capitalismo, já à oposição coloca esse e qualquer outro problema na conta do governo. Existe ainda, quem atribui o problema à escola e aos seus profissionais. Mas não, eu digo que os grandes culpados são os pais. Logicamente, as condições insalubres das políticas públicas do nosso país influenciam, e muito. No entanto, quando uma criança sai de casa para a escola, ela tem que sair com princípios que somente os pais podem transmitir. Porque a escola precisa da estrutura familiar como base para o seu ensino. Todavia, grande parte das famílias acha que a escola tem que assumir responsabilidades que pertence única e exclusivamente a ela, a família.

A escola tem sua obrigação sim, mas a família deve se preocupar com a formação dos seus rebentos antes que eles cheguem a escola. Apesar de trabalharem na formação do indivíduo, a metodologia das duas instituições é indispensável e uma não existe sem a outra. Se a escola forma intelectualmente, a família e principalmente os pais devem orientar quais são os valores que devem ser praticados.
Inspirado em uma fala do jornalista Alberto Dines, deixo a seguinte reflexão: a sociedade se preocupa com a corrupção política e exige solução, mas não se pode esquecer, que a bebida alcoólica corrompe o caráter, a família e a cidadania. Em suma, corrompe a vida. Essa é uma corrupção que deve ser combatida com intensidade. É mais fácil do que a política, porque esse combate começa com cada um de nós.