Flávio Azevedo
Guilherme Duarte
e Alfonso Martinez
Quase uma semana depois do naufrágio que vitimou o comerciante e ex-vereador de Rio Bonito, Paulo Roberto Xavier de Moura (50), o borracheiro Sérgio Luiz da Silva (49) e o pedreiro Jorge Luiz da Silva (61), o Jorge Canela, no último domingo (5), enquanto pescavam na Lagoa de Juturnaiba, em Silva Jardim, a população continua abalada com o acontecimento e se questionando sobre as supostas causas do naufrágio, que ocorreu em um trecho conhecido como ‘passagem’, onde a profundidade é de cerca de 2,5 metros e normalmente tem águas tranqüilas.
Segundo alguns pescadores e moradores da localidade, uma das causas do acidente pode ter sido o forte vento sudoeste que atingiu a região na tarde do domingo. O barco de 5 m de comprimento e 80 cm de largura, que era movido por um motor de 8 hp de potência, onde estavam as vítimas, também pode ter contribuído para o naufrágio, pois, de acordo com pescadores da localidade, não seria apropriado para navegar na lagoa, e sim para rios. Outros já atribuem como causa a fatalidade, já que os corpos foram encontrados há cerca de 100 metros da margem da lagoa, e as três vítimas sabiam nadar.
A falta de experiência dos tripulantes, também pode ter contribuído para a tragédia. “Porque quando o vento sudoeste começa a formar ondas na lagoa, uma embarcação como a deles tem que navegar bem próximo da margem, porque se ela afundar, dá para nadar até lá”, disse o pescador Amaro Basílio Alves, o Bal, de 50 anos, que há 21 mora e pesca na lagoa. Bal, que participou das buscas e encontrou o corpo da primeira vítima (junto com o morador local Rafael e o Comandante Machado, da Guarda Municipal de Rio Bonito) revelou que nos 21 anos em que mora no local nunca viu um fato como esse. “Não é raro um barco virar aqui na lagoa, recentemente virou um com quatro pessoas, mas nunca tinha acontecido um acidente seguido de morte, principalmente assim, com a morte de todos os integrantes do barco”, comentou.
Alguns pescadores profissionais, integrantes da equipe de buscas da marinha, do Corpo de Bombeiros e do Grupamento de Busca e Salvamento da Barra da Tijuca, que participaram das buscas, atribuíram a tragédia ao fato das vítimas não estarem com equipamento de salvatagem. “Mesmo com uma embarcação não muito adequada, se os três estivessem usando o colete salva-vidas não teriam se afogado”, comentou o empresário Mário César Pereira Rodrigues, que possui casa em Juturnaiba e conhece bem a lagoa. Ele também ajudou a procurar os corpos dos três amigos, mas tinha esperança de achá-los vivos.
Pescador encontrou o barco naufragado
O pescador Adilson Martineli Rosa, de 47 anos, sai todos os dias, por volta das 22 horas, para pescar na Lagoa de Juturnaiba, retornando nas primeiras horas do dia. Ele encontrou o barco naufragado na madrugada da segunda-feira (6), por volta das 5h40min, quando retornava de mais uma pescaria. Martineli contou que assim que chegou ao povoado, foi até a 120ª DP (Silva Jardim) e comunicou o fato aos policiais.
As buscas começaram por volta das 11horas do mesmo dia e foram encerradas às 17h devido à falta de luz natural. Na manhã seguinte, terça-feira (7), por volta das 8h30min, foi resgatado o corpo do ex-vereador Paulo Moura, o primeiro a ser encontrado. As buscas continuaram com quatro homens da Defesa Civil de Silva Jardim e três de Rio Bonito, oito integrantes do Corpo de Bombeiros de Casimiro de Abreu, quatro homens do Grupamento Marítimo de Cabo Frio, além de vários pescadores da localidade e de Rio Bonito. Por volta das10h30min, entrou em ação a equipe de resgate do Grupo de Busca e Salvamento (GBS), da Barra da Tijuca, composta por seis mergulhadores que utilizavam um barco inflável, um bote e cilindros de oxigênio para mergulho. Eram cerca de 13h30min quando o corpo do pedreiro Jorge Canela foi encontrado. O borracheiro Sérgio da Silva só foi encontrado na manhã seguinte (quarta-feira), por volta das 11 horas, quase no mesmo momento em que o corpo de Paulo Moura era sepultado no cemitério Jardim das Acácias, no Basílio.
Vários pescadores e amigos das vítimas, como o secretário de Agricultura de Rio Bonito, Marcos da Emater, e os empresários Afonso Rodrigues e Ramon Paz, também estavam mobilizados na procura dos desaparecidos. Ao todo cerca de 10 barcos e 50 pessoas participaram das buscas. Durante os três dias de buscas, o prefeito de Rio Bonito, José Luiz Antunes esteve no local acompanhando e ajudando no trabalho, com vários assessores. Na manhã de terça-feira, José Luiz participou das buscas e foi acompanhado pelo prefeito de Silva Jardim, Augusto Tinoco. José Luiz comentou sobre o amigo Paulo Moura. Ele lembrou da campanha eleitoral de 2000, quando Moura era o seu candidato a vice-prefeito. Ele ressaltou que Paulo Moura era voltado ao diálogo, e que foi um facilitador para que Prefeitura e a Câmara Municipal mantivessem um bom relacionamento entre os anos de 93 e 94, quando Paulo Moura presidiu a casa.
– Foi uma perda de um amigo, mas também foi uma grande perda política. Além de ser muito religioso e fazer parte de uma tradicional família Riobonitense. Ele era parte daqueles que acreditavam em Rio Bonito, por isso, ele investiu tanto na cidade. Era um grande parceiro. Honesto, trabalhador, sabia dialogar, um homem que só tomou atitudes em defesa de Rio Bonito. Só temos que lamentar essa perda e nos orgulharmos da pessoa que ele foi – disse o prefeito, consternado, na terça-feira pela manhã, no local da tragédia.
O presidente da Câmara Municipal, Caneco, classificou como “irreparável”, a perda do companheiro Paulo Moura, que foi seu chefe de gabinete no seu primeiro mandato como presidente do Legislativo. “É uma perda irreparável para a família, os amigos, a comunidade católica e o meio empresarial, devido ao seu caráter e sua integridade”, lembrou Caneco, ao lado dos vereadores Humberto Belgues e Reis, enquanto acompanhava os trabalhos de resgate dos corpos, e logo após o corpo de Moura ter sido encontrado.
Amigos e familiares dão o último adeus
Centenas de pessoas, entre familiares e amigos foram dar o último adeus às vítimas da tragédia na Lagoa de Juturnaíba. No Cemitério Jardim das Acácias, no Basílio, onde o corpo de Paulo Moura foi sepultado por volta das 9h30min, na quarta-feira, aproximadamente 400 pessoas, incluindo muitos políticos e grande parte do empresariado local, choraram a perda do empresário. Entre os presentes estavam o ex-prefeito de Silva Jardim Antônio Carlos de Lacerda, o Desembargador Carlos José Martins Gomes, o presidente do Instituto Vital Brasil Carlos Henrique Minardi Pereira, além de vereadores e secretários municipais.
O pároco local, Monsenhor Guedes e o Monsenhor José Geraldo encomendaram o corpo, enquanto os presentes oravam e cantavam “se as águas do mar da vida, quiserem te afogar...”, do hino “Segura na Mão de Deus”. “Que todos levem a lembrança de sua mansidão e amor”, pediu o funcionário da Câmara Municipal Walter Marinho, após o corpo descer à sepultura, enquanto a viúva Nilcemar, agarrada a um retrato de esposo, era amparada por familiares.
Os corpos de Jorge Canela e Serginho foram sepultados no cemitério Central da cidade. O corpo do primeiro foi sepultado por volta das 2h15min, aconpanhado por dezenas de amigos e familiares, consternados com a tragédia. Já o de Sérgio, que era proprietário de uma borracharia em frente ao cemitério, desceu à sepultura por volta das 16h, sendo velado por pouco tempo pela família, devido ao estado. O prefeito José Luiz Antunes também fez questão de comparecer, acompanhado do chefe de Gabinete da Prefeitura, Edelson Mário, secretários e vereadores.
Paulo Moura, Jorge Canela e
Serginho: exemplos para as famílias
Paulo Moura
Político, empresário, católico, casado com Nilcemar Maria Vieira de Moura e pai de Paulo Roberto, Bruno e Alecsander, Paulo Roberto Xavier de Moura, de 50 anos, era filho do empresário Manoel e Angelina Moura, e irmão de Ângela, Aécio e Rosana. Homem simples, de fala mansa, admirado pelos amigos e familiares, foi vereador em duas legislaturas (1993/1996 e 1997/2000), e presidiu a Câmara Municipal entre os anos de 93 e 94. Em 2000, concorreu a vice-prefeito, tendo o atual prefeito José Luiz como cabeça de chapa (perderam a eleição para Solange Almeida). Em 1990 foi candidato a deputado estadual, mas não se elegeu. Nas eleições de 2004 candidatou-se a vereador pelo PP, obtendo 548 votos, o que não foi suficiente para reconduzi-lo à Câmara Municipal. Durante o ano de 2005 Paulo Moura ocupou o cargo de Assessor Coordenador no Gabinete do Prefeito José Luiz. Era conhecido também pela sua paixão pelo Fluminense, seu clube de coração, e pela grande amizade que tinha com o irmão Aécio, seu sócio em vários negócios em Rio Bonito. Os amigos mais chegados sabiam da contrariedade de Aécio com a vida pública de Paulo, porque segundo ele a política tomaria muito tempo do irmão, o que não deixava muito tempo para ajudá-lo a tocar os negócios. Atualmente, Paulo era dono da loja de tintas Arco-Íris, no Centro da cidade. Foi dono da tradicional Padaria São Jorge, local onde posteriormente, junto com o irmão, construiram o edífício Work Shopping, na esquina da Rua XV de Novenbro, com a Rua da Conceição, no Centro. Os dois foram donos também da Moura Veículos.
Jorge Canela
Pai de oito filhos (dois já falecidos), irmão mais velho dos 11 filhos que seu pai, Manoel Luiz da Silva “Manoel Borracheiro”, de 84 anos, e sua mãe Nadir Batista da Silva (falecida) tiveram, Jorge Luis da Silva, o “Jorge Canela”, 61 anos, era morador do bairro da Bela Vista, onde morava com sua mulher Nazareth Maria Carlos da Silva e seus dois filhos mais novos, fruto do relacionamento de 25 anos com a esposa. Pedreiro desde jovem, Jorge Canela adorava pescar, cozinhar e contar história. Botafoguense doente, ele era católico assíduo e gostava estar em família.
De acordo com o relato dos familiares, Jorge Canela sabia nadar e conhecia a Lagoa de Juturnaíba como poucos. “Nós familiares temos certeza que não foi imprudência dos três. Eles conheciam aquela Lagoa ‘de cabo a rabo’ e não iam se arriscar se não tivessem certeza do que estavam fazendo. Mas infelizmente aconteceu essa fatalidade. Foi uma perda muito grande, mas ele só nos deixou coisas boas e muito ensinamento. Ele morreu fazendo o que mais gostava”, conta a esposa Nazareth.
Os filhos de Jorge Canela também estão sentido muito a perda do pai. “Nosso pai era tudo para gente, era o nosso protetor. Ele nos ensinou a ser generoso, a fazer o bem, ajudar as pessoas e o principal, nos tornou verdadeiros homens. Perdemos o chão, ele era nossa base. Agora vamos dar continuidade a tudo que ele fazia e passar seus ensinamentos para nossos filhos. Não tenho palavras para definir nosso pai, ele era tudo, Era uma pessoa sincera e não guardava rancor”, disseram dois dos seus filhos, Wagner, de 29 anos, e Diogo, de 22.
A última grande obra que Jorge Canela construiu foi a Igreja Nossa Senhora das Graças, no bairro da Bela Vista. Sua esposa definiu essa obra como uma “graça de Deus”. “Foi uma benção de Deus a oportunidade de construir uma Igreja. Tenho orgulho de falar para todo mundo que foi meu marido que construiu”, revela Nazareth.
Quando saiu de casa, na manhã do último sábado, Jorge acordou o filho Diogo, se despediu dele e disse para a esposa que voltaria no domingo na hora do almoço, pois iria à missa das 6h. Jorge confidenciou à mulher que quando se aposentasse iria comprar uma casa perto da lagoa para poder pescar todo dia. “Ele adorava pescar, mesmo quando chegava cansado do trabalho, ele dizia que era uma terapia. Com certeza ele está perto de Deus e irá nos confortar”, disse, bastante emocionada, Nazareth.
Serginho Borracheiro
Sergio Luis da Silva, 49 anos, o “Serginho Borracheiro”, era pai de uma filha de 24 anos, com quem morava há mais de 10 anos no bairro da Caixa D’água. Segundo a sua irmã mais nova, Cátia Regina, Sérgio também sabia nadar. Divorciado e avó de duas crianças, Serginho sempre trabalhou como borracheiro, ofício que aprendeu com o pai Luis Silva, mais conhecido como “Benedito Borracheiro”, de 73 anos. Assim como Jorge Canela, ele era Botafoguense ‘doente’, adorava pescar e conhecia bem o local da tragédia. Quando não estava pescando, Serginho gostava de beber cerveja com os amigos e jogar futebol.
Sua irmã mais nova o definiu como uma pessoa bastante alegre, que adorava “bater um pagodinho” e tomar sua cerveja. “Ele sempre foi muito feliz, vivia com o sorriso no rosto. Quando recebi a notícia foi impactante, e a agonia só aumentava enquanto os bombeiros não achavam o corpo. Foi angustiante, pois aquela lagoa é muito grande e o corpo poderia ter sido arrastado e não ser encontrado mais. Mas vai ficar aquela lembrança boa de uma das pessoas mais felizes que já vi. Não está sendo fácil para nós familiares, nossa família ainda está se reestruturando. Ele morreu fazendo o que gostava”, afirma Cátia, de 41 anos.
Serginho tinha quatro irmãos (um já falecido) e era primo-irmão de Jorge Canela. Seus pais eram irmãos e suas mães também eram irmãs.