Perdas Irreparáveis...

O que vou contar se passou nas primeiras semanas de março ou abril do ano 2000. Um grupo de pessoas discutia o futuro político de Rio Bonito. Os integrantes dessa discussão eram os candidatos a vereador do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB. Era o primeiro encontro oficial, o primeiro contato. A reunião era em Cidade Nova, na casa do hoje deputado estadual Marcos Abrahão, então presidente do partido.

Além do anfitrião da casa e de mim, recordo de alguns nomes que ali estavam naquela ocasião: Eduardo Marins, Dr. Gonzaga, Raniel do Açougue, Branco, Hélcio da Mata, Severina, Edelir Negão, Frank da Zoon, José Luiz Marques, Adão Moraes e Luiz Gomes, um ex-deputado de São Gonçalo, que coordenava as reuniões. Mas entre essas presenças uma se destacava. Era um cidadão que aparentava ter uns 40 anos, trajava roupas comuns e tinha um comportamento que chamou minha atenção: ele sempre colocava a mão no bolso da frente, quando tinha que pensar em algum dos vários assuntos que eram discutidos ali. Outro diferencial era sua fala pausada, o jeitão tranqüilo e o principal: a lucidez que demonstrava ao analisar os assuntos em pauta. Eu percebia que ele tinha razão, porque todos os presentes ficavam quietos quando ele fazia suas considerações – sempre pertinentes, principalmente para os novatos como eu. A esse personagem eu também fui apresentado: “Flávio, esse aqui é Paulo Moura”. Apertei a sua mão, sem saber que sete anos depois ele nos deixaria de maneira prematura ao perecer tragicamente nas águas da Lagoa de Juturnaiba, em um fatídico domingo, no último dia 5 de agosto.

Não me é possível recordar quem teve a idéia, mas alguém propôs que o nosso partido lançasse candidatura própria para prefeito. Alguns nomes foram citados, votados e Paulo Moura foi vitorioso. Para dizer a verdade, isso não era nada de mais, porque entre os presentes, ele possuía o melhor currículo: dois mandatos de vereador (93/96 e 97/2000), uma presidência da Câmara de Vereadores (93/94), uma candidatura a deputado estadual (90) e o principal: fama de articulador e de ser um político voltado ao diálogo. Agora, Paulo Moura era o candidato a prefeito, pelo PTB, para as eleições de 2000. Começamos a trabalhar. Estávamos próximos ao Dia das Mães, e uma mensagem em homenagem a elas assinada por Paulo Moura, circulou pela cidade. Cerca de 30 dias depois comprovamos o seu poder de articulação: o PTB se aliou ao PDT de José Luiz Mandiocão, e Paulo foi confirmado como o seu vice-prefeito.

É muito natural que os políticos e aqueles que entram na vida pública, tenham o número de pessoas a sua volta aumentado, tirando inclusive a sua privacidade. No entanto, poucas amizades resultam dessas relações, porque o contato político é efêmero e muitas vezes ‘profissional’. Por isso, geralmente essa relação se desvanece. Acontece que Paulo Moura e eu tínhamos uma paixão em comum: o Fluminense, o tricolor das Laranjeiras. Assim sendo, continuamos a nos encontrar pela cidade, e sempre parávamos para um bate papo que sempre começava com o futebol. Como criticamos o nosso goleiro, por ele ter levado aquele gol de falta de Ademar, do São Caetano, em pleno Maracanã! O gol eliminou o Fluminense da Copa João Havelange e nos deixou com a cabeça mais inchada ainda, porque na política, também havíamos sido vencidos pela então prefeita Solange Almeida.

Profundo conhecedor dos meandros da política riobonitense e das práticas coercitivas comumente usadas por aqui, Paulo Moura talvez tenha sido indiretamente um dos incentivadores da minha ainda embrionária carreira jornalística. Ele me disse o seguinte: “Flávio, tente reavaliar sua postura política, porque infelizmente, as pessoas que tem a sua preocupação e pensam como você não conseguem espaço na vida pública. Mas não abra mão de defender o que você acredita. Penso que você participará do processo de outra maneira, mas terá que descobrir isso”. Confesso que na época eu achei essa declaração muito enigmática e além de não entender o que ele quis dizer, também não dei importância. Mas esse era o seu estilo! Um homem de poucas palavras, que pensava bastante antes de dizer alguma coisa, possuidor de um poder de observação incomum, sutil ao colocar os fatos e cuidadoso na avaliação dos mesmos.

Ao saber do afogamento de Paulo e enquanto escrevia a história da tragédia... lembrei das suas palavras. Para mim não foi um sofisma, um engano ou um equívoco, porque poucos anos depois, o jovem que ouviu esse conselho continua gostando de política, porém... decidiu estudar jornalismo, para ter base ao escrever sobre o tema. Ele descobriu o significado das palavras do amigo Paulo Moura: “penso que você participará do processo de outra maneira”. Infelizmente, o entendimento veio tarde demais e não foi possível comentar com Paulo, que eu consegui entender e alcançar o significado das suas palavras.