Violentaram a democracia

Na última quarta-feira (12), eu ia caminhando pela estrada da vida quando me deparei com uma cena grotesca. Ali estava ela... jogada no chão, violentada, despida, surrada, cuspida, desacreditada. Perguntei o seu nome, ela me respondeu envergonhada: “me chamo Democracia... E estou aqui na sarjeta, por que fui abusada por 46 homens que usaram da liberdade que eu lhes dei. Agora, milhares de pessoas não acreditam em mim por causa da decisão desses alguns”.

Atendendo ao seu aceno, sentei-me ao seu lado para ouvir algo que tinha para me contar. Com um semblante entristecido, ela começou a narrativa da sua história, dizendo que nos anos 60 foi mais famosa que Leila Diniz. Com a fala embargada por lágrimas emocionadas, ela relembrou o trágico ano de 1964, quando o primeiro general-presidente Humberto Castelo Branco assumiu o lugar que pertencia a João Belchior Goulart, popularmente chamado de Jango, no que ficou historicamente marcado como Revolução de 64.

Soluçando, dona Democracia descreveu os soldados que prendiam milhares de pessoas, que professassem ideologias contrárias ao golpe militar. Parte desses homens, nunca mais voltaria ao convívio de suas famílias, tão pouco teria um sepultamento digno. Ela lembrou ainda, o triste destino de instituições importantes como a União Nacional dos Estudantes (UNE), que teve o seu prédio incendiado, e da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), que foi fechada pelos militares. Além disso, os jornais foram ocupados por censores, muitos jornalistas foram presos e centenas desapareceram, disse. A ordem era silenciar qualquer opositor.

Ela também comentou sobre o diretor de telejornalismo da TV Cultura de São Paulo, jornalista Vladimir Herzog, que em outubro de 1975, foi chamado para um interrogatório em um quartel do Exército. Mas dias depois, a família recebeu a notícia de que Herzog havia se suicidado nas dependências do Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna). Os militares recomendaram que ele fosse enterrado em um caixão lacrado, logicamente para que ninguém visse o estado do cadáver, que deveria estar dilacerado pela série de torturas a que foi submetido. Em resposta a essa atrocidade, o cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns dirigiu um culto religioso em frente à catedral da Sé. Milhares de pessoas participaram desta programação, que foi a primeira manifestação de massa desde 1968.

De repente os seus olhos brilharam. Ela – a Democracia - começou a falar de Siglas como SNI (Serviço Nacional de Inteligência), AI 5 (Ato Institucional nº 5), Doi-Codi..., mas eu percebi que ela ficou empolgada quando citou os partidos políticos como Arena (Aliança Renovadora Nacional), o UDN (União Democrática Nacional), que eram compostos pelos políticos de direita que apoiavam abertamente a ditadura e principalmente o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), para quem ela usou palavras fraternas, que apesar da liberdade vigiada, arregimentou aqueles que lutavam por ela.

Mas a dona Democracia voltou a chorar, quando falou que esse MDB que serviu de trincheira na sangrenta luta contra a ditadura militar, transformou-se no Partido do Movimento Democrático Brasileiro, hoje, um partido sem face ou ideologia. Ela ressaltou que com a queda do regime militar de 1985, o partido perdeu o seu rumo ideológico, pois passou a receber todos os políticos que viviam à sombra da ditadura, mas que agora travestidos de democratas, mudaram e passaram a apoiar o regime democrático.

Escandalizada com os rumos do país desde 1985, quando principalmente o auto escalão da política nacional, vem usando a liberdade democrática em causa própria, a dona Democracia denunciou que ao longo dos 27 anos que ela vem tentando transformar o Brasil em uma terra igualitária, o que se encontra hoje é apenas o velho pensamento: “aos amigos tudo, aos inimigos a força da Lei”.

Resumindo, esse é o conceito usado pelos nossos representantes no Senado Federal, no caso do Senador Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas. Em pleno século XXI, nossos senadores prosseguem com as práticas coronelistas da república do café com leite, onde predominavam a ameaça e o cinismo. Naquela noite fatídica cheguei a triste conclusão: enquanto isso não mudar, a pobre dona Democracia, permanecerá jogada no chão, violentada, despida, surrada, cuspida e desacreditada.