Projeto político x Projeto de Poder


Assim que foi anunciada a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Tucano José Serra, em 2002, os ministros do então presidente Fernando Henrique Cardoso passaram a se encontrar regularmente com a equipe que assumiria o comando do país. Muita gente não sabe, mas esses encontros – que a imprensa chamou de “transição de governo” – eram negociações para abafar alguns escândalos do governo FHC, pelo menos em um primeiro momento.

Com essa negociação, Lula trocava o seu projeto político – que começou no fim da década de 70 nos movimentos sindicais paulistas – por um projeto de poder. Para explicar a diferença entre as duas coisas, é bom frisar que cumprir o projeto político, seria o presidente descortinar à nação, assuntos como a verdade sobre as ilegalidades que ocorreram nas privatizações tucanas, as esdrúxulas negociações empregadas para que deputados e senadores votassem a favor da reeleição de 1998 etc. Acontece que, orientado pelos “aloprados” que lhe assessoravam – entre eles José Dirceu – o presidente optou pelo projeto de poder, que consistiu em fazer média com o grupo que saía, para que pudesse governar sem ser importunado para alcançar a reeleição em 2006.

Quatro anos depois, embora com contornos diferentes, o governador Sérgio Cabral assim que teve confirmada a sua vitória, também fez uma série de acertos com os seus adversários políticos, sobretudo com candidatos que haviam disputado o 1º Turno contra ele. Atualmente, o presidente Lula, juntamente com os seus ministros estão empenhados na prorrogação da CPMF, pois a matéria está emperrada no Senado Federal. Notícias de Brasília revelam que o presidente tem concedido muitos mimos aos senadores da oposição e da base aliada. Aliás, a idéia é seduzir os parlamentares a votar com o governo.

A minha pretensão com a narrativa acima é ilustrar a decisão da Câmara Municipal de Vereadores na última quinta-feira (29), onde as contas do prefeito José Luiz Antunes – no que tange aos gastos com educação – foram rejeitadas pelos vereadores por cinco votos a cinco. Votaram favoráveis: Marcus Botelho, Maninho, Aissar Elias, Abraão Nicolau e Rita de Cássia. Contrários: Jorge Brandão, Marcos Braga, Reginaldo Dutra (Reis), Carlos Cordeiro Neto (Caneco) e Humberto Belgues.

De acordo com os vereadores da oposição, “o prefeito não ouve a Câmara e os parlamentares estão ansiosos para ajudá-lo a governar o município”. E isso é uma grande verdade! Penso que se o chefe do Executivo municipal tivesse um comportamento similar ao do chefe do Executivo nacional – que loteou e barganhou ministérios – estaria nesse momento navegando por águas tranqüilas em direção a reeleição. Além disso, José Luiz poderia se dar ao luxo de investir menos de 25% do orçamento na Educação, que fatalmente os vereadores estariam prontos a encontrar argumentos que justificassem o acontecido.

Mas isso é apenas a ponta do iceberg. Ao término da reunião, eu vi alguns simpatizantes da atual administração caminhando pelos corredores da prefeitura criticando abertamente os cinco vereadores que deram voto contrário às contas do prefeito. O que essas pessoas não sabem ou fingem não saber, é que esse ocorrido trata-se apenas de mais uma ação orquestrada para enfraquecer o prefeito nas eleições do próximo ano. Nunca é demais lembrar, que em 1º de agosto do ano passado, José Luiz quase ficou inelegível para sempre, depois de sofrer um atentado que de acordo com a polícia teria “motivação política” (Não estou dizendo que os vereadores tenham participação no atentado). Além disso, vale ressaltar que nesse atual jogo político, os vereadores em questão são simples cartas nas mãos de forças políticas superiores, que durante o jogo, ou seja, até as eleições do próximo ano podem ser descartadas ou não por quem está no comando das ações.

Não posso concluir sem relembrar que no Brasil, sobretudo nas cidades interioranas como Rio Bonito, os projetos políticos existem apenas durante a campanha eleitoral e nos comícios, já que depois que a vitória está garantida, eles são esquecidos pelos eleitos, que passam os próximos quatro anos fortalecendo os seus projetos de poder. E o mais interessante: para se chegar a derrocada de uns e ascensão de outros, até a justa redação da lei pode ser usada como ferramenta.