
Cadê o Carnaval?
O brasileiro tem o hábito de não valorizar o Brasil e super valorizar e imitar os usos e costumes – principalmente os maus costumes – dos outros países, sobretudo se a novidade for importada dos Estados Unidos da América. Penso que conhecemos quase nada da nossa cultura tão rica e diversificada. Aos interessados no Brasil, sugiro como fonte de pesquisa as obras do antropólogo brasileiro, Roberto DaMatta. Em minha opinião, ele é uma das maiores autoridades no assunto, não porque é colunista semanal do jornal O Globo, mas porque estuda os elementos e ritos da cultura popular para entender o Brasil. O antropólogo é autor de obras importantes como Índios e Castanheiros (1967); Ensaios de Antropologia cultural (1975); Carnavais, Malandros e Heróis (1979); Universo do Carnaval (1981); O que faz o brasil, Brasil? (1984); A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil, entre outros.
Um dos assuntos que ele aborda bastante é o Carnaval, que reconhecemos como uma das marcas de nossa cultura ao lado do futebol. Em Rio Bonito, por exemplo, há cerca de 20 ou 25 anos o Carnaval era uma grande atração. Um dos meus passatempos preferidos era observar as pessoas que desciam a Serra do Sambê – onde sempre morei – em direção ao Centro da cidade, para participar ou assistir os desfiles do Serrano, Canarinho, Cruzeiro e o Leleô – os nomes que recordo. Acho que nesses dias, o bairro ficava vazio, porque descia muita gente.
Lembro de alguns vizinhos que ficavam seis meses envolvidos na confecção de suas fantasias. Eram artesanais. Eu ficava bem quietinho no quintal, porque tinha medo do carrasco. Era um vizinho, mas eu tinha medo. O King Kong também era assombroso e quando apontava na esquina, a garotada corria pra casa. Mas cadê aquela festa de antigamente? Por onde andam as fantasias? Lembro dos rapazes vestidos de beduínos, super-heróis etc. E as meninas? Eu nunca consegui descobrir quem eram aquelas moças de belas pernas que usavam fronhas na cabeça. E tinha mais. Eram as odaliscas, as havaianas, a mulher maravilha, as fadas, as bruxas etc.
Isso não existe mais. Por que será que acabou? E não foi só isso. As escolas de samba foram substituídas por caricaturas de blocos, que são até feitos com esmero, carinho e dedicação pelos seus organizadores, mas não representam nem de longe as antigas agremiações que disputavam o Carnaval Riobonitense. Hoje só tem homem vestido de mulher. Que falta de criatividade! Naquele tempo, quando alguns rapazes ficavam sem dinheiro para a fantasia, a solução era vestir a roupa da irmã ou da mãe e brincar o Carnaval. Mas no próximo ano a fantasia mudava. Agora é essa mesmice!
Alguns argumentam que a culpa pelo esvaziamento do Carnaval local acontece porque Rio Bonito não consegue competir com as praias de Cabo Frio, Saquarema, Rio das Ostras, Arraial do Cabo, entre outras. É papo furado! Naquele tempo já existiam essas cidades – e com muito mais espaço – e o Carnaval de nossa cidade era pura animação. Outros alegam que essa situação é falta de interesse e investimento do poder público. Mas será que é só isso? Tem gente que culpa a violência. Eu também não acredito. Porque apesar das notícias de pessoas agredidas na folia de Salvador, a procura pelos abadás que garantem a participação na folia de 2009 já começou.
Existe uma explicação, mas é preciso pensar um pouco. Em 1936, o teórico alemão Walter Benjamin, criticou a reprodução das obras de arte pela tecnologia, que até a metade do século XX eram considerados objetos quase sagrados e só poderiam ser contemplados por pessoas de posses em ambientes como museus e catedrais. Além disso, até ali as obras permaneciam quase todo o tempo protegidas e/ou escondidas para não se tornarem comuns. A partir do momento em que a obra de arte passa a ser reproduzida (cópias), torna-se possível qualquer pessoa possuir na sua casa, uma cópia, por exemplo, da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Sem falar na imagem da Mona Lisa estampada em bolsas, camisas etc. Esse foi o motivo da crítica de Benjamin.
Penso que com o Carnaval acontece o mesmo processo, mas de forma inversa. O Carnaval foi gradativamente deixando de ser uma celebração do povo para o povo e, tornou-se um produto comercial. A bicampeã Beija-Flor, por exemplo, investiu cerca de R$ 7 milhões em seu Carnaval. Eu desconfio que se figuras como Cartola, Noel Rosa e outros personagens ligados ao samba e ao Carnaval, acordassem na Marques de Sapucaí não ficariam felizes, ao ver em que transformaram a “brincadeira” que eles ajudaram a incrementar. O Carnaval perdeu o seu romantismo, deixou de ser do povo e virou comércio.
Além disso, tornou-se uma fonte de exibição sexual. É claro, sexo e Carnaval sempre andaram juntos! Mas existia uma moralidade tênue, discreta. Não era esse excesso de nudez do presente. Hoje, existe uma liberdade imoral, uma competição erótica, onde as mulheres expõem seus corpos com exibicionismo e sem nenhum pudor. O detalhe é que esses corpos não podem ser ‘reconhecidos’ pelas mulheres do povo, porque elas não possuem condições, tempo ou dinheiro para possuir as fartas medidas da Viviane Araújo ou para alcançar a esguia figura da Miss Brasil Natália Guimarães.
Em nome desse culto ao belo e a imagem, até o Rei Momo foi obrigado a emagrecer. Tudo isso descaracterizou e distanciou o povo do Carnaval, que dá preferência às cidades praianas, onde o Carnaval é outro. É outro, porque trios elétricos e música baiana não tem nada a ver com o Carnaval, que como sabemos é casado com o samba. Além disso, em muitos lugares, só participa da festa de Momo quem tem abadá, o que em minha opinião é um instrumento de exclusão social, pois eles custam até R$ 2 mil. No entanto, só segue o trio elétrico, quem está com o abadá. Já no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose, o setor popular custa R$ 10, mas é onde termina o desfile. O melhor lugar é o setor 9, que custa R$ 500 e fica destinado aos turistas. Que curioso! Não faz muito tempo, o Carnaval era combatido pela polícia por ser coisa de desocupados.