Guilherme Duarte

“Trabalhava nesse ponto há 23 anos e nunca atrasei um aluguel. Sustentava minha família com o dinheiro que ganhava aqui no bar. Fui despejado sem justificativa, foi um balde de água fria. Agora, vou dar uma descansada, esfriar a cabeça e depois pensar no futuro. Não tenho nada em vista, será muito difícil encontrar outro ponto como esse. Perdi um espaço muito bom”. Foram com essas palavras que Josué Ferreira da Silva, o Lelé, de 52 anos, expressou sua indignação por ter sido obrigado a arriar as portas do seu estabelecimento, na última quarta-feira (5), devido a perda de uma ação judicial de despejo movida pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), proprietária do imóvel.

O tradicional Bar do Lelé funcionava há 23 anos no prédio da antiga Estação Ferroviária de Rio Bonito, na Praça Astério Alves de Mendonça. Em litígio com a Ferrovia Centro-Atlântica desde 2006, Lelé revelou que perdeu a ação judicial em dezembro do ano passado e foi obrigado a deixar o local. “É muito frustrante ter que sair daqui depois de passar 23 anos prestando serviços à comunidade. Passei grande parte da minha vida aqui dentro. Quando vim pra cá, meus filhos ainda nem eram nascidos. Eles passaram a maior parte da infância aqui comigo. Além disso, devido a proximidade com a Rodoviária, muitas pessoas vinham me pedir informações, pediam para guardar bolsas e descansar. Estou muito triste com essa situação”, desabafou Lelé, que além de perder o espaço para trabalhar, foi obrigado a pagar as custas do processo.

Freguês assíduo do estabelecimento, Moayr Borges Schueler, proprietário da Madá Acessórios e vizinho comercial de Lelé, revelou que ficou bastante entristecido ao ver o Bar do Lelé com as portas arriadas. “Freqüento o Bar do Lelé desde sua inauguração e passar lá diariamente para tomar café e comer banana cozida já tinha virado rotina. Aqui em Rio Bonito existem poucos bares que vendiam esse tipo de comida, por isso o Lelé vai fazer muita falta. Todos aqui dessa rua eram fregueses do estabelecimento. Tomara que o local não fique largado como está a parte de trás da antiga Estação”, desabafa Moayr.

Estação das Artes também deixou o local

Situação parecida viveu a presidente da Estação das Artes, Lilian Moreno. Em novembro de 2007, os artesãos tiveram que desocupar as três salas da antiga estação onde seus trabalhos eram expostos e comercializados. Eles se mudaram para um dos boxes do Mercado Municipal, na Praça da Bandeira. Mas, diferente de Lelé, o motivo da desocupação da área foi a descumprimento de uma cláusula no convênio que a Prefeitura assinou com a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), em 9 de julho de 1998, ainda no governo da ex-prefeita Solange Almeida. A cláusula diz que “o imóvel objeto deste convênio se destina única e exclusivamente ao funcionamento de Secretaria Municipal”.

“Como não havia outro jeito, resolvemos desocupar o prédio sem intervenção judicial. O que me deixa mais indignada é que a FCA não deixa a gente utilizar o local, que acaba ficando abandonado. Estávamos funcionando naquele endereço há 3 anos. Quando chegamos lá estava tudo largado, deixamos o local todo cuidado e quando fixamos nosso ponto fomos obrigados a sair”, reclamou Lilian.