Gulherme Duarte e Flávio Azevedo

Subiu para 43 o número de pessoas infectadas pela Dengue -- doença transmitida através da picada do mosquito Aedes aegypti -- em todo município de Rio Bonito. Até a última semana de março, apenas 27 casos haviam sido confirmados pela Secretaria Municipal de Saúde, mas nos últimos sete dias mais 16 casos foram constatados, um crescimento que vem preocupando as autoridades. Outro índice que também vem crescendo a cada dia é o de pessoas com suspeita de Dengue. De janeiro a março, foram registrados 137 casos suspeitos. Número que quase triplicou na primeira semana de abril chegando a 331 casos, o que representa que a cada sete pessoas que chegam ao hospital com suspeita de Dengue, apenas uma está realmente infectada. Em nenhuma dessas situações, no entanto, foram detectados casos de dengue hemorrágica – a contaminação mais grave que pode levar os pacientes à morte.

Apesar do número de casos confirmados ainda não ser desesperador, funcionários das secretarias de Saúde, Educação, Meio Ambiente e Obras e Serviços Públicos estão realizando, desde a semana passada, um mutirão de combate a Dengue em vários bairros. Os mutirões incluem, entre outras atividades, a limpeza de terrenos, coleta de lixo, utilização do carro fumacê e a eliminação de focos com larvas de mosquitos que transmitem a doença. As ações incluem também a utilização de carros de som e a participação de alunos da rede pública e lideranças comunitárias. “Nosso objetivo é encontrar e eliminar focos de Aedes aegypti, mosquito transmissor da Dengue, nas residências e nos bairros que apresentam altos índices de infestação e casos suspeitos da doença. Além disso, queremos despertar a atenção da população para o combate e controle da Dengue, pois todos nós somos responsáveis por essa situação”, disse Olício Nascimento, coordenador do Núcleo de Educação em Saúde/IEC, departamento vinculado a Secretaria Municipal de Saúde e responsável pelo mutirão contra a Dengue.

Cerca de 40 agentes estão trabalhando nos mutirões. Até ontem (sexta-feira, 11), os bairros que já haviam sido atendidos foram Parque Andréia, Boa Esperança, Praça Cruzeiro, Ipê, BNH e Bela Vista. Na última terça-feira (8), os agentes estiveram em Boa Esperança e em Nova Cidade, onde os índices de infestação estão acima do estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OML), que é de 1%. “Foi preciso dois caminhões para carregar o material coletado nessas duas localidades. O ponto positivo é que não estamos encontrando resistência dos moradores para entrarmos em suas residências. O que vem nós preocupando são as casas que encontramos fechadas e que podem estar escondendo possíveis depósitos criadouros do mosquito da Dengue”, explicou Olício, acrescentando que os próximos bairros que serão atendidos pelo mutirão serão Caixa D’água (14), Boqueirão (15) e Centro (16 e 17).

Segundo o Coordenador do Programa Municipal de Combate a Dengue (PMCD), Aloísio Mobral, o mutirão está contando com um importante auxílio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Vigilância Sanitária. “Estamos encontrando resistências em alguns locais da cidade. Por isso, pedimos que a população colabore com o nosso trabalho e abra as portas para que os agentes possam trabalhar. O apoio da PRF e da Vigilância Sanitária está sendo importantíssimo para o nosso trabalho. Nessa semana recolhemos mais de três mil pneus que estavam abandonados em uma borracharia na BR-101, ao lado do Motel Momentos. Se não fosse a intervenção da PRF talvez não teríamos conseguido fazer essa limpeza. Foi preciso oito caminhões para conseguirmos fazer a limpeza total do local”, contou Mobral, acrescentando que hoje será realizado o Dia Estadual de Combate a Dengue. “Nos 92 municípios do Rio de Janeiro serão realizados diversos mutirões iguais aos que nós já estamos realizando aqui em Rio Bonito. Essas ações são importantes, mas se a população não se conscientizar nada disso vai adiantar. Precisamos do apoio da população, pois grande parte dessa situação é culpa nossa”, encerra.

Ação integrada entre Darcy Vargas e Prefeitura

Desde o último dia 24, a Prefeitura de Rio Bonito, através da Secretaria Municipal de Saúde, e a direção do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV) criaram um gabinete de crise para combater e prevenir a dengue. De acordo com o auxiliar de enfermagem Jonas Ferreira, cerca de 50 pessoas estão sendo atendidas diariamente na área de hidratação que a Prefeitura preparou nas instalações do hospital. De plantão na área de hidratação do HRDV, na última quarta-feira (9), o médico Marcelo Loureiro, reforçou o cuidado que a população deve ter com a água parada, porque pode ser um criadouro do mosquito transmissor da doença e com o lixo, que o inseto utiliza como abrigo. Além disso, Loureiro destacou que o principal sintoma da dengue é a febre. “O paciente pode estar com vários sintomas e problemas de saúde, porém, se ele não apresenta febre, não está com dengue”, disse o médico.

Secretária pede que população colabore

De acordo com a Secretária Municipal de Saúde, Mônica Figueiredo, o governo municipal está fazendo a parte dele, “mas a população também tem que colaborar”. “A Prefeitura está disponibilizando diariamente um médico, um enfermeiro e dois técnicos de enfermagem para trabalharem na área de hidratação no HRDV, pois o número de pessoas que chegam ao hospital com suspeita da doença é muito grande. Além disso, em todos os PSFs estamos criando áreas de hidratação para que o hospital não fique tão congestionado. O número de internações, em comparação ao município do Rio de Janeiro, ainda está muito baixo, por isso temos que continuar trabalhando para que nosso município não sofra com o surto da dengue. Desta forma, a população tem um papel fundamental no combate ao mosquito transmissor da doença. Rio Bonito é muito grande, por isso contamos com o apoio de toda a população, que além de não jogar lixo em terrenos baldios, pode denunciar os vizinhos que não estão colaborando com o mutirão”, frisou Mônica.

A emergência do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV), que atende normalmente cerca de 180 pessoas por dia, chegou a fazer 300 atendimentos em apenas 12h. De acordo com a médica Danuse Mello, “nem sempre a pessoa que procura a emergência está com dengue, mas as notícias sobre a epidemia na cidade do Rio de Janeiro têm deixado as pessoas muito apreensivas, porque as principais vítimas são as crianças”, avalia.

Estoques de repelente acabaram

O empresário Antônio Figueiredo, proprietário da farmácia Santo Antônio, no Centro da cidade, disse que a procura por repelente cresceu cerca de 200%, e nas duas lojas da farmácia não existe mais o produto. “Os repelentes nunca venderam tanto. A quantidade que chega não está sendo suficiente para atender a demanda. O fabricante, também não está dando conta de entregar o produto, porque a procura é muito grande”. Na farmácia de manipulação, Receita da Natureza, o quadro é o mesmo. Segundo a recepcionista, Naiara Reis, “os repelentes que estão sendo prescritos pelos médicos são específicos e variam de acordo com o paciente, porque alguns deles podem ser alérgicos. A procura aumentou bastante”.

Por causa da dengue, já morreram no Estado do Rio de Janeiro, cerca de 70 pessoas. Desse número, cerca de 70% residia no município do Rio de Janeiro. Como um assassino em série, a doença não tem preferência, mas na atual epidemia o número de crianças infectadas que perderam a vida tem deixado os pais em alerta e a população alarmada, não só em Rio Bonito, como em cidades vizinhas.

Uma doença que muda a rotina das pessoas

A cabeça dói e os olhos, parecem que vão saltar das órbitas. O corpo dolorido lembra as seqüelas de uma surra. Além de eliminar o apetite, as náuseas e a boca amarga deixam sem sabor, os alimentos mais apetitosos. Esse conjunto de sensações são sintomas da dengue. Uma doença que faz um adulto perder dias de serviço, e deixa a criança mais travessa, sem ânimo para as brincadeiras.

O cabeleireiro Nelson Soares, de 40 anos, que ainda se recupera da dengue que contraiu na última semana, conhece essas sensações. “Agora que eu estou retomando as minhas atividades. Eu só não fiquei pior, porque eu não parei de me alimentar. Essa foi a minha sorte. Estou na fase final, que dá uma coceira terrível”, contou o cabeleireiro, que já pegou a doença três vezes.

Queixando-se dos sintomas da dengue, a dona de casa Célia Maria Silva, de 52 anos, moradora de Cidade Nova, disse que “essa é segunda vez que estou com dengue”, embora o resultado do exame de sangue (sorologia) ainda não estivesse pronto. De acordo com ela, na primeira vez que contraiu a doença foi necessário ficar internada. A dona de casa recebia soro, na área de hidratação instalada no ambulatório Romário Muniz. Ela revelou ainda, que a sua grande preocupação é com uma neta de apenas seis meses que tem sérios problemas com as plaquetas, que é um dos componentes do sangue que diminui quando a pessoa está com dengue.

– Eu não estou preocupada comigo. Fico pensando é na minha neta. O médico que acompanha o caso dela avisou que ela não pode pegar dengue. Se isso acontecer eu não sei o que fazer – desabafou.

Também na área de hidratação do HRDV, a dona de casa Aldenira Felícia Albino, de 53 anos, moradora do Parque Andréa, bairro que tem apresentado o maior número de vítimas do surto em Rio Bonito, queixava-se de dores no corpo, febre e falta de apetite. Ela criticou as pessoas que não participam e nem colaboram com a limpeza da localidade. “Não adianta fazermos a nossa parte se o vizinho ao lado não tem cuidado com o próprio quintal”.