
É Créu
Há cerca de 20 dias, o jornalista Evaldo Nascimento escreveu um artigo analisando a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas nos estabelecimentos comerciais ao longo das rodovias do país. Ele argumentou que a decisão era equivocada porque foi apresentada como sendo, talvez, o único motivo dos acidentes que têm rotineiramente ceifado vidas inocentes em nossas estradas. Na conclusão do texto, Evaldo deixa claro que a medida pretende nublar os reais motivos da violência no trânsito. Assim, as pessoas não refletem sobre quem são os verdadeiros culpados.
Penso que algo muito parecido está acontecendo ao futebol brasileiro. Digo isso, porque a Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) orientou os árbitros a coibir a comemoração dos gols com danças e gestos que denotem algum tipo de provocação ao adversário. Ganhou sanção especial a “dança do créu”, o novo fenômeno musical carioca, que ganhou notoriedade graças ao avantajado rebolado da dançarina Andressa Soares, ou mulher melancia.
Mas, afinal de contas... O que estão querendo fazer com a maior expressão cultural do brasileiro? Sim, senhor! O futebol é a nossa maior manifestação cultural. E digo mais... A gozação, a provocação e os debates sobre as jogadas e os lances de uma partida de futebol, além de fazer parte da nossa cultura, dão um colorido especial as nossas segundas-feiras. Ou seja, quem nunca acordou numa segunda-feira, louco para perturbar um amigo que torce por aquele clube que perdeu no dia anterior? Tem gente que não agüenta esperar e telefonema, manda torpedo, coloca mensagens no Orkut etc. Tenho um amigo botafoguense que me diz quando vão jogar Botafogo e Fluminense: “Segunda-feira, alguém vai ser zoado”!
Gente, a provocação é tão cultural, que para evitar a “gastação”, tem gente que falta aula, tem aquele que deixa de ir à academia, há até quem falte o dia de serviço. Além desses tipos, ainda tem o cidadão que nem vai comprar pão de manhã cedo, para evitar o encontro com os vizinhos e amigos que certamente estarão esperando por ele. Tem também aquele que não passa pela banca para não ver estampado o jornal com a foto da vitória do time adversário. Entretanto, quando ele é o vencedor, tudo isso é esquecido. O sujeito acorda cedo, e faz questão de procurar aquele amigo que na semana anterior havia “caído na sua pele”. Todavia, agora é a vez do outro se esconder para evitar os aborrecimentos causados pelas provocações.
Na verdade, essa determinação é da Fifa. Diz o regulamento: “Um jogador deve receber cartão amarelo se, na opinião do árbitro, fizer gestos que são provocativos, para ridicularizar ou inflamar”. Apesar disso, a CBF nada fez desde que a “dança do créu” foi utilizada pela primeira vez. Quem trouxe a dança para o campo foi o meia Thiago Neves, do Fluminense. Na ocasião, ele desequilibrou a partida a favor do tricolor marcando três gols no Flamengo. Depois do terceiro gol, o jogador fez os gestos do créu para a torcida. No jogo seguinte, contra o Botafogo, o Fluminense provou do mesmo veneno. Porque além de perder por 2x0, teve que aturar a mesma comemoração do time adversário.
Mais adiante, a dança teria provocado uma briga generalizada entre jogadores na vitória do Avaí sobre o Figueirense, em uma partida do campeonato Catarinense. Após marcar um gol, o atacante Bebeto exibiu o escudo do Avaí para a torcida adversária. Já o atleta marquinhos fez a “dança do créu”. A provocação teria sido o estopim da pancadaria. Mas, seria isso mesmo? Bem, foi pensando nisso que eu retomei o raciocínio do meu amigo Evaldo Nascimento, porque as brincadeiras sempre vão existir e gente agressiva e desequilibrada também. As pessoas têm que aprender absolver as brincadeiras e serem menos “doloridas”. Já as autoridades têm que afastar os bandidos dos estádios e do convívio social. Por outro lado, parece que tem uma turminha querendo transformar o futebol em uma atividade erudita, onde o vencedor é aquele que se comportar conforme as regras de etiqueta de Gloria Kalil.
Imagine esse diálogo entre um atacante e um zagueiro: “Senhor, boa tarde! Por obséquio, o senhor poderia me entregar essa bola”? O atacante: “Oh amigo, sinto muito! Mas, não poderei lhe atender. Preciso fazer um gol. Contudo, assim que eu concluir a minha missão, eu lhe entregarei o objeto”. O zagueiro: “Desculpe amigo, mas é mister que eu impeça o seu progresso naquela direção. Preciso tomar-lhe a frente, com licença”. O atacante: “Gostaria muito de colaborar com você meu nobre companheiro, mas eu luto pela artilharia da competição, o senhor compreende não é”?
Outra hipótese seria a conversa de um árbitro e um atleta faltoso. O atleta: “excelência, desculpe interromper o seu trabalho, mas, penso que o senhor equivocou-se no seu entendimento. O senhor poderia se não for pedir muito, fazer a gentileza de rever essa penalidade?” O árbitro: “meu jovem, estou cumprindo a minha função. O senhor foi extremamente hostil e agressivo. Sem perceber o senhor atingiu o joelho do seu colega de profissão, que é a região mais importante dos membros inferiores do corpo. Inclusive, tenho que lhe castigar com esse cartão vermelho. Por favor, seja gentil e retire-se para o vestiário”.
Não defendo a truculência, mas, por favor! Isso não seria futebol!