
O mentiroso
No quinto verso, do capítulo 17 de Jeremias, que é um dos livros da Bíblia, encontramos a seguinte advertência: “MALDITO O HOMEM QUE CONFIA NO HOMEM”. Infelizmente, apesar de conhecer esse conselho há muito tempo, eu não o coloquei em prática e me dei mal. Bem, antes de prosseguir, preciso lembrar ao leitor que no último dia 17 (quinta-feira), o secretário de Obras e Serviços Públicos de Rio Bonito, Ronen Antunes, esteve na Câmara Municipal de Vereadores do município, para esclarecer – a convite da Casa – algumas declarações dadas por ele, e transcritas por mim, que foram publicadas na edição 367, do jornal FOLHA DA TERRA.
A matéria trazia declarações do secretário, que, indignado, disse que a Câmara, através das emendas efetuadas no Orçamento de 2008, estava jogando a opinião pública contra o Executivo. Segundo ele, as mudanças impediriam a realização de obras importantes que estariam programadas para esse ano. Aliás, grande parte do grupo de trabalho do prefeito José Luiz Antunes, compartilha do pensamento que a oposição está impedindo o prefeito de realizar um governo melhor. É claro que o referido secretário, não pensa de maneira diferente.
Porém, com os brios estremecidos, a Câmara de Vereadores convocou o secretário para esclarecer as afirmações, porque na verdade, a entrevista fez “o feitiço virar contra o feiticeiro”. Ou seja, o papel de vilão, não era mais do Executivo – o que agradava a oposição, que é maioria na Câmara –, e sim do Legislativo. Aliás, nunca é demais lembrar, que a oposição apóia a pré-candidatura a prefeito, do vereador Reginaldo Ferreira Dutra (Reis). Contudo, eles perceberam a tempo, que as declarações trariam desgaste para o nome de Reis, já que ele é um dos vereadores da Casa e faz parte do bloco de oposição. Além disso, estamos em ano eleitoral, e ninguém em sã consciência quer ficar contra a opinião pública, justamente nessa época. Ou seja, todos os vereadores sentiram-se constrangidos com as palavras do secretário.
Mas, durante o esperado depoimento de Ronen, ele afirmou que parte do que foi publicado no jornal não era verdadeiro. Ou seja, ele não havia dito. Para amenizar, o secretário disse que poderia ter acontecido uma “falha na comunicação durante a entrevista” – o que pode ser verdade, se ele errou os cálculos enquanto falava comigo. PORQUE EU TENHO CERTEZA DO QUE EU OUVI. Por outro lado, eu transgredi uma das ‘leis’ mais importantes do jornalismo, que é gravar as entrevistas. Sobretudo, quando elas acontecem com elementos ligados ao mundo político.
Penso que quem saiu mal dessa história fui eu e o jornal. Digo isso, porque no fim do encontro, a cordialidade entre vereadores e secretário era incrível. As duras críticas que inúmeras vezes nós já ouvimos da oposição, como por exemplo, que “a maior obra que o secretário já fez em Rio Bonito foi a sua casa em Boa Esperança”, deram lugar a suaves lisonjas. Alguns vereadores chegaram a classificar a pasta de Obras, como a mais competente e eficiente da atual administração. Além disso, o presidente da Casa, o vereador Caneco, afirmou que a Câmara aprovou até agora cerca de 90% das mensagens enviadas pelo Executivo. E, em se tratando da pasta de Obras, essa aprovação chega a 98%.
O meu descuido em não gravar a entrevista, me fez lembrar o cacique Xavante Mário Dzururá, ou Mário Juruna, como ficou mais conhecido. Esse índio saiu da sua tribo, na reserva de São Marcos, no Mato Grosso, e foi para Brasília, ao ser eleito deputado federal pelo PDT, do Rio de Janeiro, em 1982, com 31.904 votos. Depois de ser enganado muitas vezes pelos políticos da capital do país, ele decidiu que usaria um gravador “para registrar as mentiras e as falsas promessas que lhe diziam”. Seu arco e flechas no mundo dos brancos era o gravador. Assim, o cacique começou a gravar e a cobrar as promessas que lhe eram feitas pelas autoridades. Em entrevista ao Pasquim, Juruna disse: “comprei gravador porque branco faz muita promessa. Depois esquece tudo”. Com isso, cheguei a uma conclusão: se eu seguisse o conselho bíblico e tivesse a sagacidade do Juruna, eu poderia estar livre dessa.
Como sempre aconteceu comigo nessas situações, a irritação já deu lugar a uma profunda indiferença. Mas, eu confesso que ainda estou aborrecido com a minha recente fama de mentiroso. Aliás, essa situação me fez lembrar uma cena do filme “O Bom Pastor”. Em certo trecho do longa, o pai do protagonista Edward Wilson (Matt Damon), pouco antes do suicídio dá o seguinte conselho ao filho: “nunca minta para alguém”. Isso veio à minha mente, porque eu cresci ouvindo essa recomendação. Mas, existe uma grande diferença: enquanto Edward torna-se membro da sociedade secreta Skull and Bones e um mentiroso, que sacrifica parte da vida e até a família para proteger a sua posição na sociedade, eu não pretendo dar esse desgosto aos meus pais. Aliás, graças a Deus eles estão vivos, saudáveis e acompanham a minha carreira com interesse e tristeza nessas horas infelizes.
O que vou escrever, agora, certamente não será bem recebido pelos grupos políticos envolvidos nessa disputa. Mas, como eu não sou mentiroso, não posso deixar de expor essa tendência e não usarei metáforas. Dizem que eu sou adepto da “Teoria da Conspiração”. No entanto, é bom lembrar que os elogios ao secretário podem ter duplo sentido, sobretudo se forem ditos com a intenção de provocar ciúmes a quem não foi elogiado. Esse ciúme pode causar divisão e disputa interna em um grupo. Mas, essas duas situações dividem um grupo. E um grupo dividido derruba um governo.
Outro quadro interessante se desenha a partir da negativa do secretário. Porque em sua totalidade, os eleitores do prefeito José Luiz acreditavam piamente que “os vereadores da oposição eram os culpados pelas dificuldades que o prefeito tem para governar”. Na época da publicação das declarações do secretário, essa visão se tornou um argumento quase imbatível e fortaleceu o prefeito, sobretudo nos bairros, como a Serra do Sambê, onde ele construiu uma área de lazer que era um clamor popular.
Entretanto, quando Ronen – que além de secretário, é o principal coordenador político da situação – diz que parte dessas informações não é verdade, esses simpatizantes do prefeito ficam meio órfãos de argumentos. Aliás, essa situação além de permitir que a oposição seja contemplada com outros olhos, fez surgir uma dúvida onde antes havia uma certeza: “se a Câmara não é a culpada pelas dificuldades que o prefeito encontra para governar, pelo contrário, ela até ajuda... De quem seria a culpa”? Na verdade, a resposta é lógica e difícil de acreditar: “se o atrapalho não está fora, na oposição, só pode estar em um lugar: dentro do próprio grupo”.