
Até quando?
O jornal O Dia estampou na primeira página da última segunda-feira (26), mais duas trágicas histórias de jovens que encontraram a morte no trânsito do Rio de Janeiro. Os acidentes ocorreram na madrugada de sábado para domingo. O primeiro episódio aconteceu por vota de 4h15min, em Campo Grande. Um Corsa, que transportava cinco jovens bateu em um poste e deixou dois mortos e três feridos. Uma das vítimas era uma adolescente de apenas 14 anos. Todos retornavam da boate West Show, também em Campo Grande.
A segunda tragédia aconteceu por volta de 5h da manhã. Dessa vez, morreram três rapazes e uma moça. O acidente aconteceu na Avenida Brasil, em Guadalupe. O Audi A3 onde estavam as vítimas, também colidiu com um poste. O impacto foi tão violento, que uma das vítimas foi lançada para fora do carro. De acordo com a polícia, os quatro jovens também voltavam de uma casa de shows em São João de Meriti. Além disso, ninguém usava o cinto de segurança. O veículo foi um ‘presentinho’ da mãe do estudante de direito Tiago Pereira, de 25 anos, um dos que perdeu a vida no acidente.
Os pais das vítimas foram ao local do acidente e se desesperaram com a cena que encontraram. Mas, infelizmente, essas mortes hoje já estão incorporadas as estatísticas de mortes no trânsito, e não interessa ao governo – que dessa vez não é o único vilão – tentar solucionar a situação. Embora já tenhamos discutido esse assunto, eu não posso deixar de convidar o leitor para uma nova reflexão sobre o tema.
Afinal, até quando essas tragédias vão continuar? Sinceramente, eu não acho essa pergunta legal, porque ela dá idéia de impotência e passa a idéia de que esse problema é insolúvel – o que não é verdade. A pergunta mais interessante, ou talvez, mais inteligente seria: “por que os nossos jovens estão cada vez mais infantilizados, irresponsáveis, inconseqüentes, alienados e violentos”? E, outra: “porque os jovens buscam cada vez mais os vícios, a licenciosidade, e pouco valor dão a própria vida”?
Eu lia essa notícia em uma banca de jornal, quando se aproximou um cidadão de cabelos encanecidos, que talvez não agüente mais ver esse tipo de tragédia e comentou ao meu lado: “as autoridades deveriam prender os pais desses meninos, porque eles são os verdadeiros culpados por essas crianças estarem morrendo antes de conhecer a vida”. Eu olhei para aquele homem e vi nele um brasileiro como nós. Sedento por justiça e soluções, mas possuído de um profundo desencantamento pela vida, pelas pessoas, sobretudo descrente em uma possível solução.
Mas, retornando a sugestão daquele cidadão – de prender os pais – acho que esse assunto é bem polêmico. Contudo, confesso que eu tenho alguma simpatia pela idéia, e acho que aquele cidadão tem lá as suas razões. Porque, veja bem. Eu não sei se o amigo leitor concorda, mas eu ainda não consegui entender, o que uma menina de 14 anos, desacompanhada dos pais fazia na rua às quatro da madrugada. Gente, onde esses pais estão com a cabeça? Um adolescente de 14 anos pode ter 1,80m, que ele continua sendo criança. E, detalhe, quanto maior a estatura, maior a vulnerabilidade, porque o porte pode levar o adolescente a práticas que são lícitas apenas aos adultos.
Isso pode até não soar bem aos ouvidos de alguns. Mas, os pais perderam por completo o controle dos filhos e a noção de limites. E esses fatores são importantes para formação de um cidadão consciente e responsável. Mas o futuro é sombrio. Porque veja bem, o que podemos esperar de famílias formadas por pais desajustados, consumistas, egoístas, que não se preocupam em conhecer os próprios filhos? Aliás, é interessante. Quando os pais percebem que perderam o controle, tentam subornar a atenção dos filhos com mimos e presentes caros.
Na verdade essa compensação, cria na criança e/ou no adolescente, hábitos promíscuos, degradantes, que conduzem à prostituição moral, física e mental. Esse quadro social forja um cidadão que viverá de aparências e manterá as suas relações baseado na compensação financeira, onde o sujeito vende o corpo, a personalidade, o voto e os seus direitos. Uma mera observação da sociedade mostra essa realidade, sobretudo nas famílias de classe média. Exatamente aqueles que têm acesso a direitos básicos como educação, saúde, informação e segurança. E, quando esses direitos não são satisfatórios, é possível pagar por eles na iniciativa privada.
Mas, por incrível que pareça, é na casa do pobre que o pai ainda é respeitado como chefe da casa. Na casa do pobre ele ainda é consultado para tomar decisões. Ao contrário da classe abastada, entre os pobres, o pai não é o ‘otário’ que só trabalha para sustentar a vaidade voraz de esposa e filhos. Observando as famílias, conclui-se que as mais sólidas e preparadas para as tempestades do cotidiano são exatamente as ‘caretas’, que praticam, incentivam, buscam e preservam os valores morais, cada vez mais raros nos dias atuais.