
Tropa de ‘Elite’
Ainda nem bem não havíamos digerido os últimos escândalos da capital Federal, eis que surge um bem aqui. Pertinho de nós. Recapitulando a história. A polícia prendeu na última semana o ex-chefe de Polícia Civil e atual deputado estadual pelo PMDB, Álvaro Lins. Segundo a Polícia Federal, ele está envolvido, juntamente com outras oito pessoas, em um caso sórdido de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Para ficar bem definido a estirpe de alguns dos líderes da política carioca, é bom ressaltar que o Ministério Público Federal denunciou o ex-governador Anthony Garotinho como integrante dessa quadrilha.
A situação é tão séria, que apesar de possuir foro privilegiado, o deputado Álvaro Lins foi preso em flagrante por lavagem de dinheiro. O parlamentar chefiou a Polícia Civil do Rio duas vezes, entre 2000 e 2006, durante os governos de Garotinho e Rosinha. De acordo com a denúncia, ele seria o chefe operacional da quadrilha, que contaria ainda com policiais e ‘laranjas’. As acusações contra o grupo incluem lavagem de dinheiro, formação de quadrilha armada – por se tratar de policiais que têm porte de arma – facilitação de contrabando e corrupção passiva.
O grupo cobraria propina de delegados em troca de indicação para chefiar determinadas delegacias. O delegado escolhido tinha o compromisso de repassar mensalmente uma ‘caixinha’ aos integrantes da quadrilha. O dinheiro também era utilizado em campanhas políticas. Quem não quisesse entrar no sistema sofria represálias. Isso aconteceu com a Delegacia de Meio Ambiente, que por não colaborar com o esquema, ficou “sem viatura e com apenas alguns gatos pingados para trabalhar”, como vimos nas gravações transmitidas nos noticiários. Ou seja, não existia aparelhamento para combater os constantes desmatamentos em nossa Mata Atlântica. Aos policiais foi indicado que “trabalhassem de bicicleta”.
Fiquei estarrecido quando a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) seguindo a velha máxima, “a lei é igual para todos, mas uns são mais iguais que os outros” decidiu pelo relaxamento da prisão do colega deputado. A prova disso, é que menos de 36 horas depois de ser preso, Álvaro Lins estava ‘bem fresco’ na rua. Na votação, 40 deputados foram favoráveis e 15 contrários. Isso é previsto pela Constiuição do país.
Contudo, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criticou a decisão dos 40. Em nota, a entidade declarou que “a decisão foi açodada e tomada às pressas. Não foi feito um exame detido e cuidadoso dos fatos que motivaram o juiz a decretar a prisão”. O conselheiro federal da OAB, Cláudio Pereira Neto, acredita que “a decisão foi tomada para garantir privilégios e em nome do corporativismo”. Eu faço coro com a OAB. Aliás, quero aproveitar a oportunidade para agradecer a esses 40 senhores, o serviço de utilidade pública que eles prestaram à sociedade ao revogar a decisão da Justiça.
Mais o que causa mais indignação é o histórico do deputado Álvaro Lins dos Santos, que é paraibano de João Pessoa e tornou-se delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro em 1997, quando foi aprovado em primeiro lugar no concurso público realizado pela instituição. Ele cursou a Escola Superior de Oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, onde alcançou a patente de capitão. Além disso, o deputado formou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e concluiu o mestrado na Universidade Gama Filho, onde é professor de Direito Penal.
Na Polícia Civil, Álvaro Lins foi delegado da Divisão Anti-Seqüestro e foi um dos principais responsáveis pela redução desse tipo de crime no estado. Depois de ser promovido a Diretor de Planejamento da Secretaria de Segurança Pública e delegado titular da Polinter, ele bateu todos os recordes de prisões. Em 2000 assumiu pela primeira vez a chefia da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O deputado também possui cursos de especialização na Itália, França, Estados Unidos e Canadá. No final de 2004, foi indicado pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), como especialista da América Latina no grupo especial que elaborou o Manual Internacional de Práticas Anti-Seqüestros da ONU.
Por sua firme atuação na defesa do cidadão e no combate ao crime, Álvaro Lins foi homenageado com dezenas de condecorações, como por exemplo, as medalhas de Honra ao Mérito da Polícia Civil, do Pacificador do Exército e a Medalha sangue dos Heróis da FEB. Além disso, ele foi condecorado com as Ordens do Mérito da Marinha e da Aeronáutica, com o Colar do Mérito do Ministério Público do Rio de Janeiro, as Medalhas Tiradentes pela Alerj e Pedro Ernesto pela Câmara Municipal de Vereadores do Rio de Janeiro e os títulos de Cidadão de Honra em 21 municípios.
Em muitas ocasiões ficamos satisfeitos quando os noticiários apresentam a polícia invadindo favelas e dizimando bandidos como se estivessem caçando preá. Não podemos generalizar, mas realmente nesses lugares a ilegalidade, o tráfico e a contravenção existem. Apesar disso, essa historinha do deputado Álvaro Lins nos mostra, que ao contrário do que imaginamos os grandes chefes do tráfico não estão nas favelas, mas sim, acomodados nos suntuosos prédios da Zona Sul e refestelados em suas coberturas com vista para o mar. Nos morros estão os ‘otários’, que morrem defendendo o que não é deles. Infelizmente, a falta de educação e a revolta com a situação social menos favorável em que vive, não permite ao ‘otário’, enxergar além do horizonte, e ver que são escravos no século XXI.