
É preciso tomar ‘Providência’
Assim como no caso Isabela Nardoni, a trágica história dos três jovens da Providência que foram mortos, por ordem do tribunal do tráfico do Morro da Mineira, está dando o que falar. Mas infelizmente, assim como no caso da menina que supostamente foi morta pelo pai e pela madrasta, essa nova tragédia vai ganhando contornos de novela. Essa história da Providência bem que poderia mostrar para o Brasil, que a “Lei é igual para todos”, mas o caso está sendo transformado em um circo grotesco, como diria o doutor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré. Aliás, o caso oferece os ingredientes necessários para isso.
Vamos relembrar: o Morro da Providência esteve ocupado pelo Exército desde dezembro do ano passado, por militares treinados em cuidar da segurança nacional. Mas a política mal utilizada é um problema. Imagine que esses militares foram designados para fazer a segurança de equipamentos e operários do projeto Cimento Social, um programa do Ministério das Cidades, que o senador e pré-candidato a prefeito do município do Rio de Janeiro, bispo Marcelo Crivella (PRB) trouxe para o Morro da Providência. É bom lembrar que a Providência é controlada pelo ‘Comando Vermelho’ (CV).
No dia 15 de junho, David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos, Wellington Gonzaga Costa, de 19, e Marcos Paulo da Silva, 17 foram encontrados mortos num lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Segundo investigações, os jovens haviam sido detidos pelos militares, por suposta desordem no alto do morro, mas foram liberados. O tenente do Exército Vinícius Ghidetti, responsável pela prisão dos rapazes, não concordou com a liberação. Por isso, ele teria planejado com outros 10 militares, a entrega dos jovens aos traficantes do Morro da Mineira, que é dominada pela facção ‘Amigos dos Amigos’ (ADA) – rival do CV. Os traficantes da mineira tiraram a vida dos jovens.
O caso motivou protestos e soldados e manifestantes entraram em confronto. Para fechar o assunto, políticos de destaque nacional, como o Ministro da Defesa Nelson Jobim, e até o presidente Lula, vieram à Capital carioca se desculpar com os familiares, devido a conivência dos militares.
No último domingo (22), o Fantástico, da Rede Globo, explorou a página do Orkut do tenente Vinícius Ghidetti. O programa mostrou que entre as suas comunidades, existe uma intitulada “A solução é o Caveirão”. Mas isso não é nada, pois inúmeras comunidades surgiram apoiando os militares, sobretudo o tenente Ghidetti. Um rápido passeio pelo Orkut nos mostra pelo menos 10 delas. Algumas, têm epígrafes impressionantes: “Vinicius Ghidetti e os outros 10 militares merecem uma medalha”; Outra: “Vinicius Ghidetti: militar, herói e entregador de presunto, porque bandido bom é bandido morto”; Mais uma: “Essa comunidade é para quem concorda que ele é o cara, ele tá certo... Tem que entregar esses bandidos mesmo para o fuzilamento, e põe na conta do Papa”; Tem mais: “Vinicius Ghidetti – o Justiceiro”, entre outras.
Existem algumas comunidades de repúdio à ação dos militares, mas as páginas que declaram apoio são maioria. Isso apavora muitas pessoas, mas muita gente que faz pose de não concordar com a atitude dos militares, no fundo está esfregando as mãos de contentamento e esperando que outras atrocidades como essa sejam praticadas por militares e até civis.
Mas o que leva as pessoas concordarem com ações covardes como essa do Morro da Providência? Bem, eu não quero ser repetitivo, mas isso retrata a descrença de uma sociedade que não suporta mais o assédio da bandidagem, e a impunidade que diariamente deixa nas ruas, os criminosos que utilizam a corrupção para escapar da Justiça oficial. Ou seja, praticada pelo Estado Democrático de Direito.
Essa incredulidade também é estimulada, quando as pessoas cumpridoras dos seus direitos percebem que os bandidos – do morro ou do asfalto – têm mais liberdade e acesso que elas. Parafraseando Getúlio Vargas, “esses tubarões” compram sentenças e mantém gente do auto escalão em suas folhas de pagamento com dinheiro proveniente do tráfico, da contravenção e, sobretudo, dos desvios de verbas públicas.
Esse caso da Providência mostra que existe uma guerra de miseráveis no país. É miséria contra miséria. Um miserável sem perspectiva precisa assaltar para comer. Mas ele pratica o delito dentro do ônibus, assaltando outro miserável que tenta sobreviver saindo de casa às 4h da madrugada para retornar às 10h da noite.
Às vezes, o miserável consegue entrar para polícia, ou tem a sorte – ou azar – de seguir uma carreira militar. Adiante os miseráveis se encontram e acontece o inevitável: tiram a vida um do outro defendendo ideais alheios. Ou seja, do grupo hegemônico dominante que utiliza esses jovens – militares ou traficantes – como guardiões de suas ilegalidades.