
Nossa Câmara...
Como todo riobonitense, tenho acompanhado de soslaio e grande desconfiança a queda de braço que vem acontecendo entre o Executivo e o Legislativo do nosso município. Essa situação me deixa muito a vontade para citar um ditado popular que já se tornou clichê: “na briga do mar com o rochedo, quem sofre é o marisco”. Ou seja, desse desentendimento entre os dois poderes quem sofre é o povo, que vê muita energia sendo empregada naquilo que não é projeto, nem propostas que tragam benefícios à municipalidade.
Apesar de alguns segmentos da administração municipal afirmarem que a Câmara de Vereadores tem contribuído, e muito, com o atual governo, o prefeito José Luiz Antunes (DEM) tem dito exatamente o contrário. Em qualquer oportunidade, o chefe do Executivo faz duras críticas a Casa Legislativa, que na sua maioria é composta por vereadores de oposição, que apóiam abertamente o nome do vereador Reginaldo Ferreira Dutra (PR) para prefeito. Mas por incrível que pareça, através dessa postura o prefeito tem conseguido afetar o prestígio da Câmara com a opinião pública, tornando-se muito fácil encontrar pessoas descontentes – em várias ocasiões, o descontentamento é com ambos os lados.
No último dia 1º (sexta-feira), durante a inauguração do comitê do prefeito José Luiz, no bairro da Praça Cruzeiro, a população explodiu em aplausos quando o advogado Saulo Borges, candidato a vereador pelo PTB, disse que “agradeço a Deus por não ter sido eleito em 2004. A derrota permitiu que eu não integrasse essa Câmara de Vereadores que aí está”. O advogado não parou por aí, e fez uma revelação muito séria. Sem citar nomes, ele contou: “eles (os vereadores) reclamam que o prefeito não dialoga com a Câmara, mas em várias oportunidades eu acompanhei o prefeito se encontrando com os vereadores para tentar um entendimento e, em um desses encontros, um deles bateu no bolso e disse: “eu quero isso prefeito””.
Ao ouvir essa narrativa, confesso que fiquei com náuseas, porque embora esse tipo de comportamento seja comentado nos bastidores políticos, nunca ninguém teve peito e coragem de vir a público dizer que a história é verdade. Eu sempre tentei não acreditar nessas histórias, mas como não dar crédito a uma testemunha ocular? Essa declaração eu também não gravei, mas foi feita diante de cerca de 400 pessoas que acompanhavam a inauguração do comitê. Mesmo assim, eu fui para casa com o pensamento de não dar crédito a história.
Contudo, na última terça-feira (5), na primeira reunião da Câmara Municipal de Vereadores, que retornava do recesso, o vereador Humberto Belgues (PSDB) demonstrou da tribuna toda sua insatisfação e irritação com os demais vereadores. Ele fez severas críticas aos seus pares e afirmou que “estou com vergonha de ser vereador, porque o prefeito há muito tempo vem nos fazendo de palhaços e nós não tomamos nenhuma atitude. Vou começar a pedir votos contra os vereadores que aqui estão”, disse Belgues, reiterando que “ele (o prefeito), tem desrespeitado a Lei inúmeras vezes e nós não temos exercido o nosso papel fiscalizador. O prefeito só não foi cassado ainda, porque temos um bando de frouxos aqui nessa casa”, desabafou o vereador tucano, apresentando a cópia do convênio com o Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj). Segundo ele, o Executivo deveria ter encaminhado a minuta do convênio à apreciação da Casa, antes do documento ser assinado.
O vereador estava tão transtornado, que ressuscitou o episódio da cassação do ex-prefeito e atual vice Aires Abdalla (PSC), que é o grande trunfo do seu grupo no palanque que apóia o vereador Reis e a deputada federal Solange Almeida (PMDB). “É bom saber que Aires foi cassado por ter feito um convênio com a LBA, que foi infinitamente menor que esse. Ou seja, o atual prefeito pode ter o mesmo destino. Mas também, já abriram uma CPI aqui e não deu em nada”, alfinetou Humberto, que concluiu sua participação com um acalorado debate com o vereador Abrahão Nicolau (PP), que é da base do governo e decidiu finalmente ‘sair do armário’ e defender a administração. Embora seja sempre comedido e de pouca fala, Nicolau retrucou as acusações do vereador tucano dizendo que ele não poderia comparar a situação de Aires Abdalla e a de José Luiz, “porque são casos totalmente diferentes”.
O vereador Humberto Belgues concluiu: “espero que a imprensa aqui presente registre esses fatos e minha indignação. Podem colocar tudo que eu disse, pois eu assino em baixo”. Bem, leitor, quanto a mim estou atendendo a um pedido do vereador e reportando para você esses últimos acontecimentos relativos a Casa que nos representa. Quanto a você, leitor, penso que deveria freqüentar as reuniões do Legislativo para sentir essa emoção de perto. Aos vereadores, vou deixar a observação de um dos vários jovens que assistiam a reunião, como reflexão: “dizem que Rio Bonito não tem teatro, mas tem sim. É só vir aqui na Câmara”!