
O “prego de Satanás” e a “praça do pedágio”
Lembro que eu era ainda bem pequeno, quando ouvi pela primeira vez a alegoria do “prego de Satanás”. Diz o relato, que certo homem era tão pobre, que não tinha sequer o que comer. O seu sofrimento era tão grande, que já em desespero desejou a morte. Em meio a essa agonia, apareceu na choupana onde nosso personagem morava, um sujeito muito elegante, que sem fazer cerimônias apresentou-se como Satanás. Sem saber o que dizer, o homem ouviu dele, a seguinte proposta: “posso transformar sua existência miserável em uma vida de sucesso e glórias. Em troca, você permitirá que eu apenas coloque um prego na parede da sua casa”.
Almejando a tão sonhada felicidade, aquele homem concordou com a proposta do visitante. E, a promessa foi cumprida, porque em poucos dias, a sorte passou a sorrir para o nosso herói, e ele tornou-se inexplicavelmente um dos homens mais bem sucedidos da cidade que morava. Em menos de um ano, já ocupava o posto de mais rico entre os habitantes de toda a região. Tinha empregados, propriedades, negócios e uma casa muito confortável para viver. Vários anos se passaram, até que um dia, ao entardecer, um sujeito trazendo um pedaço de carne podre, entrou na propriedade do ex-miserável. Sem pedir licença, ele invadiu a residência e pendurou aquela carniça que trazia, no prego que pertencia ao Satã.
Indignado com aquele absurdo, o dono da casa abordou o invasor e exigiu que ele tirasse imediatamente aquele pedaço de carne putrefata de dentro de sua casa. Calmamente, o visitante olhou para o dono da casa e disse: “amigo, você já esqueceu? Esse prego é meu. E no meu prego, eu penduro o que eu quiser. A casa é sua, mas esse prego me pertence”! Sem argumentos, ele reconheceu que falava com Satanás. Viu-se obrigado a abandonar sua casa, e logo, perdeu aquele bem tão precioso.
Através dessa alegoria, tento ilustrar o que está acontecendo com Rio Bonito, em relação a Autopista Fluminense. A Prefeitura Municipal embargou as obras da praça do pedágio, que está sendo construída, próxima a entrada do bairro Sambê. A Justiça, porém, já autorizou a retomada das obras. O prefeito José Luiz Antunes (DEM), em entrevista ao programa “O Tempo em Rio Bonito”, da rádio Sambê FM (105,9), apontou 24 pontos ao longo da BR – 101 que, segundo ele, deveriam receber investimentos da empresa que vai explorar a rodovia.
De acordo com o prefeito, a interdição das obras não aconteceu apenas por razões ambientais, mas, sobretudo, porque esses investimentos representam melhorias importantes para o bem estar do riobonitense. Ele elencou pontos como o Viaduto de Rio do Ouro e o cruzamento que existe no mesmo bairro, onde ocorrem muitos atropelamentos e acidentes com vítimas fatais. Além disso, José Luiz apresentou o acesso complicado para se chegar ao Boqueirão e ao Green Valley. Ele também comentou sobre os retornos e as muitas passarelas que devem ser construídas ao longo da BR: “todas essas melhorias eu solicitei há cerca de dois anos. A rodovia já está recebendo investimentos, a praça do pedágio já está sendo preparada e eles não realizaram sequer uma das nossas exigências”, alertou José Luiz.
Refletindo sobre essa queda de braço, penso que esse é mais um assunto onde prevalece a lógica “Tropa de Elite”, lembram? “Ou você se omite, ou você se corrompe ou você parte para a guerra”. Penso que a solução dessa contenda, passa pela terceira opção, porque esse é um daqueles casos que a solução não acontece de forma amigável. Digo isso, porque os interesses são muitos. Para começar, sabemos que a negociação para essa privatização foi fechada ‘por cima’ – via Governo Federal. No meio disso, existem interesses de empreiteiras, lobistas, bancos, fornecedores, grupos financeiros, a grande imprensa silenciada, o futuro de políticos de visibilidade nacional, campanhas eleitorais de 2010, entre outras coisas.
Faço a seguinte comparação: a praça do pedágio é o “prego” de Satanás, ou da Autopista Fluminense. Nesse impasse, a vitória de Rio Bonito está nas mãos do prefeito José Luiz Antunes, que para obter sucesso, deve estar apoiado pelas instituições, sociedade civil organizada e, sobretudo, pela população riobonitense. Com esse respaldo, o prefeito deverá liderar uma insurreição contra esse poder dominante, que nunca pensou no bem-estar do riobonitense, mas sim, nos ganhos. Outra coisa deve ficar fora dessa luta: as disputas políticas domésticas. Pensar diferente disso é demonstrar falta de inteligência.
Se essa insurreição não existir – diálogo não resolve, temos o exemplo da ViaLagos (RJ–124) – vamos ter que arcar, como na alegoria do “prego”, com a carniça da falta de passarelas, de retornos mal construídos, dos atropelamentos, acidentes e mortes no cruzamento do Rio do Ouro e em toda a extensão da BR–101, com aquele viaduto mal planejado de Rio do Ouro, com o abuso de nos tirarem o direito de ir e vir, principalmente para os ciclistas – como acontece na ViaLagos – entre outras coisas. Sem querer ser apocalíptico, penso que essa “carniça” pode até nos expulsar de Rio Bonito ou nos fazer trocar de bairro.
Nos demais municípios cortados pela BR–101, os seus mandatários estão, além de calados, acomodados e persuadidos com a riqueza da arrecadação. Por isso, que nós riobonitenses não sejamos covardes, e juntos com o prefeito José Luiz – sem ele a luta não faz sentido –, possamos dar um basta nesse quadro. Nunca é demais lembrar, que já existe em Rio Bonito, uma estrada fechada pela Justiça. Ela liga Jacundá a Mineiros. Ali, para atender os interesses da concessionária que explora a RJ–124 (ViaLagos), há cerca de 10 anos o nosso direito inalienável de ir e vir está sendo desrespeitado. Que tenhamos espírito público, para que o resultado dessa vez seja a favor do povo.