Flávio Azevedo
Conhecida como um dos principais pontos de Rio Bonito, onde se encontra distração, boa gastronomia e um bom bate-papo, a Avenida Sete de Maio já não agrada mais aos seus freqüentadores como acontecia em um passado recente. Essa falta de interesse afeta principalmente, os comerciantes ali instalados, que já percebem a diminuição dos lucros. Até as famílias residentes na Avenida, sobretudo as estabelecidas nas proximidades da esquina com a Rua Sizenando Damasco, onde estão os comércios, estão se queixando da falta de tranqüilidade, que era uma dos atrativos desse trecho da cidade.
O desinteresse pelos estabelecimentos, a diminuição dos lucros e a insatisfação dos moradores, é proveniente da nova mania de alguns jovens riobonitenses: disputa de som. Os carros chegam, os porta-malas são abertos e o ‘pancadão rola solto’ em uma competição que envolve descobrir quem tem o som mais potente da cidade. O ritmo é o funk, e as letras, quando compreendidas são palavras de baixo calão e palavrões. Os jovens, como que em transe, não percebem que estão incomodando. E, se descobrem, utilizam o manjado jargão popular: “os incomodados que se mudem”!
Um dos insatisfeitos com a situação é o comerciante Neurimar Alves de Souza, o Terça, proprietário do restaurante Terça’s, que nos fins de semana, funciona das 17h às 2h da madrugada. De acordo com ele, o funk em alto volume está espantando os clientes e nos fins de semana é insuportável. “Você já pensou estar com a sua família saboreando uma refeição ou outra coisa qualquer, tendo que ouvir funks com letras obscenas e ofensivas? Ninguém fica tranqüilo nessa situação”, argumenta o comerciante.
A luta em busca do sossego não permite rivalidade. O proprietário do Restaurante, Pizzaria e Chopperia Sete de Maio, Severino José, concorrente direto de Terça’s, além de concordar com o comerciante vizinho, acrescenta que o seu prejuízo é de cerca de 20% nos fins de semana. “Todas as sextas e sábados, nós tínhamos música ao vivo. Eu não coloco mais, porque os cantores não conseguem se apresentar. O som é tão alto que ninguém ouve nada”, frisa Severino, alegando que já ligou para a polícia, “mas quando eles apontam na esquina, os rapazes desligam o som. Como não vêem nada, a polícia vai embora. Só que, eles viram as costas, e o som volta a ser ligado”, lamenta o comerciante.
Clientes inconformados
Chamada de “cliente vip” pelo proprietário do Restaurante, Pizzaria e Chopperia Sete de Maio, a comerciante Rosângela José Resende, de 50 anos, alega que ela é uma das clientes que já foram embora por não conseguir ouvir a música do estabelecimento. “Outro dia, eu mesma fui conversar com os meninos do som e pedir que eles abaixassem o volume. Eles diminuíram, mas logo aumentaram novamente. Outro dia saí daqui tão aborrecida, que fui direto à delegacia pedir providências. Mas chegando lá, a porta estava fechada”, reclamou Rosângela, sugerindo que “para resolver esse problema é preciso que as autoridades façam uma vigilância mais eficaz. Por aqui não existe apenas os bares, há também casas com crianças e idosos”, conclui a comerciante, fazendo um alerta: “O pior é que a droga rola solta em meio a esses grupos. Ou seja, se os meninos estão drogados, perdem totalmente a noção das coisas”, analisa.
Moradores exigem providências
Há cerca de 14 anos, a comerciante Rosane Siqueira Nunes, de 44 anos, mora no número 481, da Avenida Sete de Maio. Instalada quase na esquina com a Rua Sizenando Damasco, Rosane diz que os moradores estão incomodados, porque o som dos carros é muito alto e desagradável. “Eu não tenho nada contra a diversão da juventude, mas chega um momento que fica insuportável. Isso acontece por volta de 1h ou 2h da madrugada. O volume do som é tão alto que não dá para fazer nada. Não tem como dormir, não dá para assistir TV, quer dizer, só ver, porque ouvir é impossível”, desabafa Rosane. Outro problema que ela enfrenta nos finais de semana é que a entrada da garagem da sua casa geralmente fica obstruída pelos carros. “Não consigo entrar nem sair de casa”, lamenta.
Também morador do mesmo trecho, o vereador Humberto Belgues (PSDB), disse que os jovens precisam extravasar as suas energias, mas é preciso ter limites. O vereador classificou o som dos jovens que ficam próximos a sua casa como o de um “trio elétrico”. Pai de dois filhos, de seis e quatro anos, Belgues também falou sobre as letras imorais.
– Ouço muitos jovens reclamando que não existe nada em Rio Bonito, mas nos fins de semana que tem uma festa, eles ficam aqui até 5h ou 6h da manhã – frisa o vereador, antes de dar uma alfinetada no Juizado de Menores, perguntando por essa instituição. “Acho que o Juizado deveria se pronunciar sobre esse assunto”. Humberto também lembra que existe a Lei do Silêncio, que limita o barulho até a meia noite nos fins de semana e até as 22 horas, de segunda a sexta-feira.
Ainda segundo o vereador, ele pediu ao diretor da Guarda Municipal de Rio Bonito, Vencerlau Machado, e ao ex-comandante do 35º Batalhão de Polícia Militar em Itaboraí, coronel José Macedo (recentemente transferido), uma solução para o problema. Humberto Belgues também reconheceu que as autoridades não querem se indispor com os jovens. “Apesar disso, alguém vai ter que assumir esse ônus, porque os vizinhos constantemente ligam reclamando que não conseguem ser atendidos pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar. Ou seja, nos fins de semana, Rio Bonito vira terra de Marlboro”, conclui.
Operação conjunta
O diretor da Guarda Municipal, Vencerlau Machado, diz que juntamente com a Polícia Militar e a Polícia Civil, vai ser realizada uma operação conjunta para coibir esse tipo de delito. “Além dessa operação, estamos preparando um projeto particular da Guarda Municipal para impedir que esse tipo de situação continue importunando os nossos munícipes”, revela.